Simplicíssimo

A editora Casa Verde

Um dos convidados da Bienal do Livro da Bahia, que aconteceu no fim de 2005 em Salvador, foi o escritor mineiro Luiz Vilela. Ele participou do Café Literário, aquela conversa informal entre o convidado e uma entrevistadora. Lembro bem de uma das histórias que ele contou. Seu primeiro livro foi enviado a diversas editoras, que recusaram a obra. Com recursos próprios, publicou o livro, aos 24 anos. Com ele, ganhou seu primeiro prêmio literário. Que quero dizer com isso? Até Luiz Vilela precisou investir, nele mesmo, no início da carreira. E olha só quem ele é hoje…

Atualmente isso é cada vez mais comum. Escritores bancando as edições dos próprios livros, organizando e publicando coletâneas, abrindo pequenas editoras.

Uma dessas novas editoras é a Casa Verde. Idealizada em 2004 pela jornalista e escritora Laís Chaffe, a Casa Verde tem como marco zero a antologia de contos "Fatais", lançada em março de 2005, que reúne textos dos autores da Casa (o grupo é composto por Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Laís Chaffe, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding) e Flávio Ilha. Em junho do mesmo ano sai mais uma antologia: "Contos de bolso", de minicontos, com textos de autores da Casa e de mais 35 escritores convidados. Nomes como Amilcar Bettega Barbosa, Cardoso, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Paulo Scott e Luis Fernando Verissimo participam do livro. Meses depois, em novembro, é publicado "Era uma vez em Porto Alegre", com contos dos autores da Casa, fazendo uma releitura de várias histórias infantis tendo Porto Alegre como cenário. E a Casa Verde estava só começando.

Recentemente saíram do forno da Casa os livros "Contos de bolsa" e "No Orkut dos outros é colírio". (Todos eles – os últimos e os citados no parágrafo anterior – têm formato de livros de bolso, o que facilita a vida do leitor, que pode carregá-los aonde quer que vá. Além do fato de livros de bolso terem seu próprio charme.)

O primeiro é uma antologia de minicontos que têm as mulheres como tema. Além dos autores da casa, participaram do livro 40 escritores convidados. Carol Bensimon, Fabrício Carpinejar e Paulo Bentancur são alguns deles.

Nos minicontos a criatividade rola solta, como em “Monstruosa TPM”, de Fernando Neubarth: “Num instituto da Transilvânia, a esposa do Conde Drácula confidenciava com a manicure, sentia-se outra mulher com a menopausa: – Ele ficava impossível nos meus períodos menstruais…”

Paulo Bentancur dá mostras da boa pena (em excelente fase) com “Escritura”. Transcrevo só um trecho, para não estragar a surpresa: “Ele é escritor mas não escreve um e-mail. Os livros que me deu, sem dedicatória. – Sei lá… Parece que estou estragando esse objeto precioso, maculando-o – explica-se…”.

Antologias de minicontos, quando bem organizadas, são sinônimo de diversão e boa literatura. E “Contos de bolsa” é um bom exemplo disso.

Mas o destaque mesmo é "No Orkut dos outros é colírio", de Caco Belmonte. Primeiro livro individual publicado pela Casa Verde, "No Orkut dos outros…" é também a estréia “pra valer” do jornalista e escritor gaúcho. Digo “pra valer” porque Caco, questão de alguns anos, publicou de maneira independente (quer dizer, mais independente ainda) o "Contos para ler cagando", sua “pré-estréia”, digamos assim.

“Joel” abre o livro, e mostra ao leitor que Caco não está para brincadeira. Joel sai de casa para buscar um remédio para a filha adoentada, que ficou em casa com a mãe. Apenas isso poderia resultar em um belo e trágico conto. Mas Caco deixa a tragédia óbvia de lado e vai além: mostra um homem pobre, alcoólatra e desconfiado da esposa (ele pensa que a filha não é sua, pois “Mariângela tinha nascido branca, de olhos claros”, bem diferente dele), que desvia o caminho do posto de saúde por conta da necessidade financeira e da necessidade física do álcool. Ao chegar em casa, mais tarde do que o previsto, com o remédio, Joel se depara com a verdade que sempre tentou afastar de si. Impotente, nada faz, a não ser entregar-se ao vício.

O conto que dá título ao livro aborda um tema que pouca gente tem noção da seriedade: os efeitos nada saudáveis que o Orkut pode causar em uma pessoa. O narrador descobre, através do perfil da ex-namorada, que ela sempre fora uma desconhecida para ele. Ele admite que monitorou o perfil da ex, diz que parou com isso depois de algum tempo, mas a coisa se torna viciante, e ele volta a procurar o Orkut da ex. Lembrei de "O mito de sísifo" (do conto, não do livro), de Camus.

“Tejada” é outro ponto alto do livro. Começa com a chegada de um homem à uma casa de praia. Ele e a ex-esposa costumavam passar as férias lá, com os amigos. Ele tinha esperança de encontrá-la naquela ocasião para tentar a reconciliação. Ao vê-la de longe, ele parte sem se despedir de ninguém, por um motivo que só lendo o conto para saber…

Disputando o posto de melhor conto do livro estão, além dos já citados, “Chico” (um “conto de formação”, por assim dizer), “Adalgisa” e “A casca do grão cozido”. Este chega a ser engraçado de tão escatológico.

Ao fim das pouco mais de 70 páginas – poucas, infelizmente – de "No Orkut dos outros é colírio", fica aquela sensação de “já acabou?”, e a torcida para que Caco Belmonte não demore a lançar outro livro.

* Texto publicado originalmente no site Digestivo Cultural

Rafael Rodrigues

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