Simplicíssimo

Armando

Buscando tranqüilidade, Armando voltou para sua cidade natal e fixou morada por lá mesmo.

Reabriu a velha mercearia de seu falecido pai e passava seus dias atrás do balcão. Vendia um quilo de farinha aqui, um pacote de biscoitos ali, e assim foi levando sua vida.

O dinheiro que ganhava ali era quase nada. Mas Armando não precisava de grandes lucros. Possuía no banco uma gorda poupança, resultado de vinte anos de trabalho duro como gerente desse mesmo banco.

Ali, naquela cidadezinha interiorana de pouco mais de dez mil habitantes, finalmente encontrara o descanso que tanto desejava.

Ouvia as histórias daquelas pessoas simples que freqüentavam sua vendinha e também contava seus “causos”, frutos da vida na cidade grande, que ficava mais violenta a cada dia.

Assim eram os dias de Armando. Nos fins de semana, saía com alguns amigos de seu pai para caçar. Utilizava a antiga espingarda que o velho deixava encostada atrás da porta do quarto. Armando conhecia a carabina desde muito menino, e logo aprendera a atirar com o pai.

Precavido por herança, trouxe da cidade uma pistola automática que, a princípio, deixava a seu alcance debaixo do balcão da mercearia.

Acontece que iniciou-se no país uma campanha de desarmamento. Armando, homem de bem, e certo de que encontrara finalmente a paz que sempre desejara, resolveu se desfazer de sua arma. Manteve apenas a velha espingarda; mas essa, ficava em casa.

Certo dia, um jovenzinho mascarado entrou na mercearia de Armando. Tinha uma meia-calça na cabeça e segurava um punhal em uma das mãos. Ele queria o (pouco) dinheiro que Armando lucrara até o fim daquela tarde. Além disso, surrupiou também o dinheiro de dois clientes de Armando que ali estavam naquele momento.

Armando estava pronto para entregar todo o dinheiro, quando começou a reconhecer aquele rapaz. Parecia ser filho do Zé dos Bodes, compadre de seu falecido pai. E Armando falou:

– Menino, não dá um desgosto desse a teu pai.

O rosto do rapaz tinha expressão de pavor. Enfiou o punhal no estômago de Armando e saiu em disparada.

Antes de morrer, Armando se perguntou por quê diabos resolveu desfazer-se de sua pistola.

Rafael Rodrigues

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