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A guerra do trânsito

São ocupados por dia cerca de 22 milhões de leitos hospitalares no mundo por vítimas de eventos no trânsito. Morrem no Brasil entre 30 e 50 mil pessoas devido a estes mesmos eventos. Comparados às guerras que presenciamos, os acidentes matam mais e de forma mais continuada do que qualquer guerra que já existiu.

As estradas brasileiras matam de 10 a 70 vezes mais do que as rodovias do grupo de países ricos denominados G7. Morrem 213 pessoas por 100km de estradas contra 3 no Canadá e cerca de 10,7 na média dos 7 países.

Os números oficiais de 1995 no Brasil contam com 30 mil mortos ao ano nas estradas brasileiras, sendo que este número provavelmente é subestimado e pode chegar aos 50 mil.

Para cada morto, estima-se que pelo menos 15 pessoas tenham ficado feridas em eventos no trânsito, algumas delas com lesões irreversíveis e incapacitadas para a vida ativa, resultando em um prejuízo social econômico difícil de precisar.

Os homens tendem a se envolver 3,5 vezes mais do que as mulheres em acidentes fatais, sendo a taxa de mortalidade de 9 mulheres em 100.000 habitantes contra 33,9 homens por 100.000 habitantes.

Motoristas jovens são os responsáveis mais freqüentes pelas colisões, enquanto crianças e idosos são as vítimas preferenciais dos atropelamentos, fração importante da morbi-mortalidade por eventos no trânsito brasileiro.

Neste sombrio panorama, o médico, como portador da chancela da sociedade para decidir sobre a saúde e o bem-estar desta mesma sociedade, deve responsabilizar-se também por todas medidas preventivas que sejam possíveis para a manutenção deste bem-estar do ponto de vista social e coletivo.

         Assim, a educação para o trânsito também pode – e deve – ser responsabilidade do médico, não somente do médico especialista em Medicina do Tráfego como de todo e qualquer médico imbuído na missão de proteger a vida dos indivíduos de sua comunidade.

         O médico perito examinador, capacitado em curso de formação específico, detém todas as ferramentas necessárias para bem educar candidatos a revalidação da Carteira Nacional de Habilitação, seus pacientes de consultório e mesmo pessoas de diferentes grupos de sua comunidade. Tal processo educativo poderia se dar através da realização de palestras em escolas, sindicatos, associações de trabalhadores, empresas e até mesmo nas diferentes sociedades médicas, tratando de promover a disseminação deste conhecimento para a cidadania no trânsito, a proteção ao meio-ambiente e o desenvolvimento progressivo de um trânsito cada vez mais amigável, cortês e cordial.

         Tais atividades deveriam buscar atingir a todas camadas e estratos sócio-econômicos e de faixa etária, sendo dada particular importância para crianças, adolescentes e adultos jovens, as primeiras por serem mais facilmente moldáveis e condicionáveis e representarem o futuro do nosso comportamento no trânsito e os dois seguintes por serem os principais envolvidos em acidentes fatais de trânsito e por servirem de exemplo par aos menores.

         Vários empecilhos podem ser esperados para a efetiva realização de tal proposta, como a excessiva carga de trabalho que os médicos se auto-impõe, justificada por numeras razões dentre elas a necessidade de adquirir uma remuneração cada vez maior para manter o status adquirido frente à crescente taxação de seu trabalho e à desvalorização do mesmo nas diferentes frentes. Além disso, é razoavelmente difícil encontrar, tanto no meio médico como em qualquer outra classe profissional, pessoas com espírito altruísta dispostas a realizar tal trabalho de forma voluntária, deixando de lado atividades com suas famílias ou amigos, já tão raras graças à vida atribulada que levam.

         De posse deste conhecimento, uma forma de solucionar tal entrave seria, ou remunerar o profissional médico para que este seja estimulado a realizar tal trabalho social ou, melhor ainda, passar a promover cursos de capacitação em todos cursos de residência médica do país e então, levar tais médicos residentes a praticarem, talvez duas horas a cada duas semanas (ou outra quantidade de tempo a ser discutida oportunamente), trabalhos de conscientização na comunidade a que estão vinculados.

         Seria uma forma prática e bastante efetiva de institucionalizar as medidas educacionais em todo o país, beneficiando, além das comunidades atingidas, os próprios médicos residentes, importante força de trabalho para a sociedade e, jovens que são, exemplos fundamentais para seus pares e para aqueles que já trilham os primeiros passos de sua estrada e, finalmente, aqueles que ainda virão.

 

Rafael Reinehr

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