Edição 291 (27/08/08) – Um mundo operário, um mundo literário

Cada vez mais estamos nos tornando – e me desculpem se “chavoneio” – “escravos do sistema”. Se até a primeira metade do século XX ainda nos dispúnhamos a sentar e ler devagar e com prazer, hoje, com uma freqüência cada vez maior, temos a tendência de ler o mais depressa possível uma determinada obra ou mesmo artigo de revista, com o objetivo de seguir adiante. Não podemos parar. O mundo gira mais depressa e se eu não estiver de pé antes do meu “adversário” eu perco o bonde do tempo.

Cada vez mais estamos nos tornando – e me desculpem se “chavoneio” – “escravos do sistema”. Se até a primeira metade do século XX ainda nos dispúnhamos a sentar e ler devagar e com prazer, hoje, com uma freqüência cada vez maior, temos a tendência de ler o mais depressa possível uma determinada obra ou mesmo artigo de revista, com o objetivo de seguir adiante. Não podemos parar. O mundo gira mais depressa e se eu não estiver de pé antes do meu “adversário” eu perco o bonde do tempo.

A leitura transformou-se de instrumento de lazer em peça de uma engrenagem utilizada para compensar as angústias de um mundo normalizado, individualista e competitivo. São poucos entre nós que conseguem comer e sentir o devido gosto nas refeições. Uma sucessão de garfadas que se sucedem uma em cima da outra, com mínimos espaços para a respiração é a tônica. Como conseqüência, a obesidade encontra-se em índices epidêmicos. Até as relações sexuais parecem que passaram a ser feitas por obrigação e precisam terminar o quanto antes para que se possa assistir ao filmezinho ou fazer outra coisa qualquer (dormir para enfrentar o dia seguinte?)… Sintomas conversivos e psicossomáticos são realçados neste mundo sem sentidos, em que o corpo oblitera até onde agüenta a angústia da crise de percepção mas cedo ou tarde acaba cedendo à pressão que vem de todos os lados.

Deste painel, nem as crianças estão completamente livres, pois a sobrecarga de atividades que lhes são imposta desde cedo – inglês, espanhol, natação, balé, aulas de informática lhes deixa pouco tempo para a leitura e o lazer. E quantas são as crianças que, sem estímulo parental adequado se dispõe por conta própria a buscar um livro? Não é mais fácil pegar um pacote de “chips” e se anestesiar na frente da tevê, do videogame ou do computador?

Não podemos querer muito em um mundo onde os pais dessas crianças trabalham oito, dez, doze horas por dia em busca do seu ideal de consumo, em busca do conforto material que se lhes impõe como necessidade a partir de uma propaganda que mais parece uma máquina de lavar consciências.

Nichos como o Simplicíssimo, O Pensador Selvagem, Cronópios e alguns outros são resistências ativas a este padrão desumanizador de vida. Existem muitos pensando em alternativas para solucionar o estado de desatino ao qual abraçamos como recreio da felicidade. Entretanto, a comunicação entre estes pensadores e os possíveis efetores da mudança ainda não se estabeleceu de forma significativa, capaz de gerar mudanças sensíveis na realidade como a temos. O trabalho é incansável, mas necessário.

Por um mundo mais literário e menos operário, mais focado no lazer, na arte e nas relações humanas e menos centrado nas relações com o trabalho, a competição e o dinheiro, subscrevo.

 

Rafael Reinehr

 

PS: Os nossos entusiasmados parabéns para a Simplicolunista Lilly Falcão, que teve seu conto “De Valquírias e de Mercedes” selecionado pelo Primeiro Concurso Mercedez Benz de Contos. Parabéns pela conquista! Esperamos agora a edição do livro.

PS2: Se você também quiser dividir suas conquistas e premiações literárias, fique à vontade para entrar em contato e nos comunicar. Teremos satisfação em aumentar o volume dos alto-falantes e anunciar a todo som o seu mérito.

PS3: Queremos dar as boas vindas aos novos integrantes da Nau Simplicíssimo que estréiam nesta edição:

  • Simone Cristina Bazilho
  • João Batista Santos

Sejam bem-vindos Simone e João!