Entrevista com Rubens da Cunha, poeta e escritor

CC: Você nasceu em Joinville, SC, onde reside, não é? Fale um pouco de você: como foi sua infância?
Rubens da Cunha: Sou filho de um agricultor e de uma professora primária. Vivi até os vinte anos na roça, trabalhando com meu pai. Costumo dizer que tenho vinte anos de mato e quando eu tiver quarenta anos, vou ter vinte anos de cidade, assim aos quarenta vou…
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CC:
Você nasceu em Joinville, SC, onde reside, não é? Fale um pouco de você: como foi sua infância?
Rubens da Cunha: Sou filho de um agricultor e de uma professora primária. Vivi até os vinte anos na roça, trabalhando com meu pai. Costumo dizer que tenho vinte anos de mato e quando eu tiver quarenta anos, vou ter vinte anos de cidade, assim aos quarenta vou estar zerado. Minha infância foi marcada pela falta de energia elétrica no lugar em que vivíamos. A “luz” só chegou lá em casa quando eu tinha 7 anos, e com ela vieram todos os confortos: geladeira, televisão, enceradeira, liquidificador. Coisas que se tornaram imprescindíveis, mas que para mim naquela época não faziam muita diferença. Às vezes falta energia e meu irmão mais novo pragueja por não poder usar o computador. Eu rio por dentro, da distância entre a infância que ele teve (está com 18) e a minha. Fui alfabetizado por minha mãe. Tive aula com ela, da primeira à quarta série. Sempre fui muito sozinho, desde cedo olhava os livros com olhares diferentes dos meus colegas, eu os lia para além do dever, para além da sala de aula. Fora isso, fiz tudo que os moleques da localidade faziam: tomava banho de rio, pescava, andava de bicicleta, caçava passarinho, subia em árvore, mijava sobre formigueiros…

CC: Quando você decidiu ser escritor? E quando você se descobriu verdadeiramente escritor?
Rubens da Cunha: Eu decidi ser escritor mais tarde, por volta dos 20, 22 anos. A leitura me motivou à escrita. Eu sempre li muita poesia. Comecei a tecer uns exercícios, todos horríveis, claro, mas fui tomando gosto, percebendo que escrever não era apenas sentimento, inspiração, mas um trabalho de criação artística que exigia muito. Por ser uma arte de simples execução: papel e caneta, própria para os tímidos, e que não exige tantas coisas como as demais artes, fascinante, é que me aproximei e me decidi pela escrita como forma de expressão.

Quanto à segunda pergunta, eu ainda não sei se sou verdadeiramente um escritor. Exerço a escrita, gosto dela, é a forma que eu escolhi para me manifestar, mas esse “verdadeiramente” pra mim é muito amplo, vem muito carregado de responsabilidades. Vou me amparar em Fernando Pessoa e responder de forma irônica: eu sou “fingidoramente” um escritor.

CC: Você acaba de lançar Aço e Nada, livro de crônicas. Fale sobre o livro.
Rubens da Cunha: Escrevo crônicas há mais de quatro anos para o Jornal A Notícia, um dos principais jornais de Santa Catarina. Aço e Nada é uma seleção das crônicas publicadas entre fevereiro de 2004 e março de 2007. São 64 crônicas divididas em quatro capítulos temáticos: “Os Animais Dentro”, em que as crônicas se aproximam do conto, possuem personagens. “O Olho Vigiador”, são crônicas a respeito da cidade, das ruas, do lugar em que moro. “O Corpo da Gratidão”, cujas crônicas se aproximam da prosa poética. “O Morador das Palavras”, em que as crônicas refletem sobre o ato da escrita.

Procurei, nesse livro, reunir textos mais atemporais, que não dependessem tanto do contexto histórico.

CC: Muito já se falou sobre a morte da crônica, que a crônica é um gênero menor… O que você pensa a respeito?
Rubens da Cunha: Não acredito muito em gênero, gosto de misturar as fronteiras, minha prosa vem carregada de poesia, alguns de meus poemas são quase narrativos. Acredito que não haja mais possibilidade de estancar os tipos possíveis de textos literários dentro das características básicas de cada gênero. O mesmo ocorre com a crônica, tida como conversa do escritor com o leitor, misto de linguagem literária e jornalística, tem que abordar cenas do cotidiano, geralmente com humor, enfim, essas são características da crônica clássica. A crônica atual é muito mais abrangente, pois vai beber também na fonte dos outros gêneros.
Não acredito na morte da crônica, até porque é muito praticada. Só no jornal em que escrevo existem 7 cronistas, um para cada dia da semana. E é assim em praticamente todos os jornais. Como vai morrer um gênero que é tão escrito?
Quanto a ser menor, acho esse discurso meio erudito, existem textos bons e ruins, independem do gênero. Uma crônica bem escrita vale bem mais que um poema mal escrito. Além disso, a crônica tem uma gama enorme de leitores, e pelo menos em relação a mim, é o único gênero que eu pratico profissionalmente, no sentido em que recebo pelo trabalho que executo.

CC: Antes de Aço e Nada você publicou A Busca Entre o Vazio (em formato e-book), Campo Avesso e Casa de Paragens (não sei se a ordem é essa, não me recordo). Fale um pouco sobre cada um dos livros.
Rubens da Cunha: A ordem é a seguinte: 2001, Campo Avesso, meu primeiro livro, e como tal uma experiência quase desastrosa, um livro metalingüístico em que os assuntos abordados nos poemas só interessavam a mim ou a outro escritor novato.

Em 2004 lancei Casa de Paragens, que já é um livro mais maduro, com uma linguagem mais definida, um projeto mais acertado que aproxima o poema à prosa pelo formato quadrado dos textos, numa tentativa de abolir a forma mais comum dos versos.

O e-book foi um projeto do site www.arcosonline.com, capitaneado pelo poeta português Victor Domingos, em que eu publiquei algumas narrativas.

CC: Você coordena o Grupo de Poetas Zaragata, aí em Joinville. O que exatamente vocês fazem, além de zaragata? O que é o Grupo Zaragata?
Rubens da Cunha: Deixei a coordenação no fim do ano passado. Passei a bola para um poeta mais jovem e motivado do que eu. O Zaragata é um grupo de estudos, que se reúne para leitura e crítica dos próprios poemas. Talvez por isso somos menos de dez pessoas, já que a crítica é um dos nossos pontos-chave. Fazemos apresentações, saraus, vamos a algumas escolas, esse tipo de atividade. Mas a essência do grupo é o estudo do texto poético como elemento essencial para o aprimoramento da escrita.

CC: Você é contista, poeta, cronista… O que você prefere: a poesia ou a prosa? O que exige mais de você? Você se considera essencialmente poeta, ou prosador?
Rubens da Cunha: Minha linguagem natural é o poema. Minha linguagem racional é a prosa, é quase como um segundo idioma. Costumo me identificar como poeta, apesar de todo estigma que a palavra carrega, mas devido à dimensão que o jornal tem, estou sendo citado muito como cronista. Não vejo muita distinção entre prosa e poesia, até porque meus textos misturam muito os gêneros, então não posso dizer que sou poeta ou prosador, vou sair pela tangente: sou poeta e prosador.

CC: Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Rubens da Cunha: Quando a poesia tiver finalidade eu desisto dela imediatamente. A sua força, beleza, verdade, está no fato que ela não serve para nada, não tem viés utilitário, objetivista, não é algo que vá exercer uma função. A poesia é apenas poesia. Cada um faz o que quer dela. Na verdade, ela não serve para nada e ela serve para tudo.

Quanto à segunda pergunta, não consigo encontrar uma palavra que defina poesia, talvez dicionário e imaginação. A primeira porque contém quase todas as palavras, a segunda porque com ela é possível reinventar as palavras já existentes e criar novas.

CC: Como você definiria a sua Literatura?
Rubens da Cunha: Muito complicado isso, mas minha literatura quer expor a fraqueza do humano e a beleza trágica dessa fraqueza. Costumo trabalhar com um tema recorrente: o homem inadequado ao meio. Um homem preso às convenções e conveniências, mas com um desejo intenso de fuga, de distanciamento de tudo.

CC: Você acredita em oficinas literárias? Você é fruto de oficinas?
Rubens da Cunha: Acredito em oficina como uma das ferramentas possíveis para melhorar a escrita, ampliar possibilidades, desenvolver a técnica criativa. Muito do poeta que eu sou veio a partir de uma oficina que fiz com o poeta Fernando José Karl. Não há dúvidas que minha escrita é antes e depois do contato que tive com ele e sua oficina da palavra.

CC: Você lê crítica literária? Você liga para a crítica, para o que falam sobre seus livros?
Rubens da Cunha: Eu leio crítica porque gosto e por força dos meus estudos de Letras. Gosto muito. Acho que ajuda a conceituar melhor os projetos literários. Impossível não ligar para o que falam do meu trabalho. Tanto elogiosamente quanto negativamente. Tudo se torna motivo de reflexão e ferramenta de aprimoramento da minha escrita. Os elogios mantêm acesa a chama da minha humildade, as críticas negativas mantêm o meu orgulho vivo, com aquela necessidade de provar que na próxima não vai ser bem assim.

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Rubens da Cunha: Alaranjado.

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Rubens da Cunha: Abel, do romance Avalovara, de Osman Lins. Eu queria muito ser aquele cara.

CC: Dos poetas e escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Rubens da Cunha: Hilda Hilst acima de tudo e de todos. Foi a única escritora (entre homens e mulheres) que me fez parar de escrever. Eu sempre leio Hilda pra saber meu lugar, para me colocar em meu lugar de escritor insignificante. Hilda destrói meu ego e isso é bom. Me dá consciência dos meus limites e de como e quanto posso superá-los.

Dos vivos, aqui em Santa Catarina tem um poeta chamado C. Ronald que me fascina muito, uma obra difícil, estranha, mas sempre sedutora. Recentemente li Lourenço Mutarelli: Cheiro do Ralo e Natimorto, além de uma série de revistas em quadrinhos dele. Me impressionou muito, sobretudo, o romance Natimorto.

CC: O que você está lendo no momento?
Rubens da Cunha: Terminei Se um viajante numa noite de inverno, do Ítalo Calvino, e vou começar a ler A Rainha dos Cárceres da Grécia, do Osman Lins. Nesse intervalo tenho lido textos teóricos e muitos poemas.

CC: Hoje em dia todo mundo é "escritor", todo mundo é "poeta"… Basta navegar um pouco pela internet para perceber isso. O que você acha disso? De cada 10 blogs, quantos, na sua opinião, são de Literatura?
Rubens da Cunha: Depende. Se você diz de cada 10 blogs que se dizem de literatura, quantos são realmente de literatura? Eu digo que no máximo 3. Na verdade a gente vai fuçando, caindo nos blogs meio ao acaso, por indicação, e vai se identificando, se conhecendo. O meu blog tem a pretensão de ser de literatura, de ser um espaço que demonstre a minha produção literária. Acredito que muitos tenham a mesma intenção, quanto a valores estéticos e literários, aí embaralha o meio de campo.

CC: Já que estamos falando em internet e blogs, indique um blog para os leitores do Simplicíssimo e do Balaio de Letras.
Rubens da Cunha: O blog do Henrique Fialho traz sempre resenhas muito interessantes da literatura contemporânea portuguesa, algo que me interessa muito atualmente (www.antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com). No Brasil posso indicar o blog do Fernando José Karl (http://nautikkon.blogspot.com) e um dos vários blogs do Douglas Dias (www.vomitandoimagens.blogspot.com). (Sempre invejei quem consegue manter vários blogs ao mesmo tempo).

CC: Como anda o cenário literário aí em SC? Você mantém contato com escritores daí?
Rubens da Cunha: Sim, mantenho bastante contato com muitos. Óbvio, como em todo lugar, andamos conforme nossas identificações estéticas. O cenário literário em SC é bom, bastante produtivo, o que nos falta é uma ampliação dessa produção. É muito difícil de sair, via livro, das fronteiras catarinenses.

CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Rubens da Cunha: Sim, alguns já alteraram minha rota. Poemas dos Becos de Goiás, de Cora Coralina, fez com que eu olhasse a poesia como uma arte possível de ser feita por mim. Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, de Hilda Hilst, fez com que eu olhasse a poesia como uma arte impossível de ser feita por mim. A Paixão Segundo G.H. me fez homem. Avalovara, do Osman Lins, me desfez enquanto homem.

CC: Qual o sentido de tudo isso?
Rubens da Cunha: Nenhum, talvez se procurar bem, haja no fim de tudo uma bela interrogação.

CC: E o Brasil?
Rubens da Cunha: Acho que o Brasil precisava mesmo era ir para reciclagem. Limpeza total, tudo novo. Tudo inédito.

CC: O que você diria para quem pretende ser escritor?
Rubens da Cunha: Leia. Escreva. Não goste muito do que você escreve. Mas sinta um certo orgulho de exercer esse poder: o da escrita criativa.

CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Rubens da Cunha: Contar que eu queria mesmo era ser cineasta e músico. Mas por incompetência financeira da minha família e da minha falta completa de ritmo não pude ser nem uma coisa nem outra.

CC: Rubens da Cunha por Rubens da Cunha.
Rubens da Cunha: Cito Caetano, em “Peter Gast”, para me definir:

“Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum
E eu sou ninguém…”


Entrevista concedida ao poeta, prosador e simplicolunista Cláudio B. Carlos (CC).
Visite o blog do Rubens da Cunha: www.casadeparagens.blogspot.com