Noturno Gris (Estranha Música)

Era quase de um azul fugidio a casa cujo centro era o eco de suspiro lento e reticente, e de vir-a-ser ferrugem o crepúsculo do qual estava prenho o meio-dia, sobre as gotas de suor na xícara de leite, o litro de conhaque ao meio… Era quase de um azul fugidio a casa cujo centro era o eco de suspiro lento e reticente, e de vir-a-ser ferrugem o crepúsculo do qual estava prenho o meio-dia, sobre as gotas de suor na xícara de leite, o litro de conhaque ao meio, os cabelos embrenhados da enxaqueca de olhos fundos e febris da madrugada que morrera. Tudo era espera pelo nada mais seguro e morno, sono incorpóreo e fundo, mansidão das coisas esquecidas de existir no espaço e nos séculos perdidos das auroras mais distantes. Os olhos salgados, a boca deserta, arrastou-se como arrasta sua cauda um cometa vagabundo e opaco pelo ermo de uma noite absoluta a procura do leite especulado pelos gênios ancestrais, e que coalhou em Lua -disso eram testemunhas sua lágrimas, o oco do bocejo, os dentes que rangiam, as palavras apaixonadas pelo afásico sentido da poesia.

Como num corte, quando cessa o fundo musical pressagiando algum desfecho inesperadamente trágico, em nível supersônico, como quando o rádio cala sua música inaudível de um sinal fora do ar, em freqüência negativa, um baque pálido separou duas metades de um instante transfinito.

Agora que chovia, sentou-se em frente à tela branca e dedilhou caracteres como notas musicais codificadas e neutras, executando uma peça para voz e dados-abstratos-resultantes-da-interação-de-sinais-elétricos-equacionados-em-células-binárias-de-informação-aritmética, improvisando temas e variações caóticas. Estranha música fugindo líquida, plasmática, atravéz de respostas motoras coordenadas e desuniformes à necessidade da palavra manifesta e seus rudimentos mudos qual migalhas de bits pela página eletrônica, na antecipação limítrofe ao fracasso da razão. E como não bastassem os relâmpagos e o nada…

Agora que se ouvia no hemisfério adormecido um negro ressonar de chumbo, exceto pelos fragmentos de canção perdida que flutuavam órfãos de seus corpos inertes e silenciosos, agora menos densos e cujo fogo foi pedir exílio nas estrelas, seu fôlego perdido pulsou numa fermata, conjugando para sempre sobre a fenda aberta do momento dilatado, duas pálpebras de tempo, e mergulhou na escuridão de uma deriva calma.