Simplicíssimo

A vida é mesmo assim

Por vezes, dou comigo mergulhado em lembranças de tempos que nunca mais serão meus. Foi o que me sucedeu ontem no jardim, ao reparar naquele casal de adolescentes aos beijos.

Treze ou catorze anos devia ter eu na altura, um novo ano lectivo começara, o meu terceiro no liceu. Tinham-me inserido numa turma mista de raparigas e rapazes repetentes e senti-me deslocado no meio daqueles cavalões com muito mais altura (e escola) do que eu. Enquanto eu ainda usava calções, os outros rapazes já vinham de calças compridas. As raparigas, nesse tempo, eram obrigadas a usar batas brancas, que lhes ficavam muito bem, cada uma mais alva que as outras (as batas) e todas muito bem engomadas, dava gosto vê-las. Muitas só traziam a bata sobre a pele, além de uma ou duas peças de dimensões reduzidas que servem para cobrir, higienicamente, as regiões mais íntimas do corpo. Outras, por vaidade ou por pudor, usavam as batas sobre a roupa normal que tiravam (as batas) à saída das aulas, dobravam e punham sobre os livros, levando tudo com o mesmo jeito com que, não há muito tempo, ainda carregavam as bonecas ao colo.

Só tínhamos aulas na parte da manhã, das oito à uma da tarde, às vezes mesmo só até ao meio-dia. No final das aulas, e antes de irem para casa almoçar, muitos estudantes do liceu ainda iam por breves minutos à Praça Velha trocar mais dois dedos de conversa. Mas creio que se tratava, outrossim, de um ritual erótico incipiente: a inconsciente procura de possíveis futuros parceiros. As raparigas formavam grupinhos e os rapazes vinham atrás, guardando apenas a distância suficiente para não parecer uma perseguição descarada.

No liceu, a partir do terceiro ano já se podia pertencer a uma turma mista (foi o meu caso) formada com os restos que não couberam em turmas monogâmicas; mas, nos intervalos, os gâmetas masculinos tinham que ir para o pátio de terra, enquanto os femininos eram obrigados a permanecer no pátio de cimento. Nem sequer havia contacto visual entre eles, porque o pátio de cimento era no interior do edifício e o de terra era fora, dando para a rua. Isto concedia aos rapazes o privilégio de poderem adquirir nos intervalos as guloseimas que as inúmeras vendedeiras expunham, ao longo do muro Norte do liceu. Guloseimas que depois podiam oferecer às meninas durante as aulas, passando-as sem que os professores se apercebessem, e uma vez que as próprias salas das turmas mistas tinham uma área para rapazes e outra para raparigas.

Voltando ao princípio desta lembrança, falava eu então da indumentária. Os calções que, devido à minha idade, a minha mãe entendia que eu devia ainda usar, passaram a ser o principal motivo da minha infelicidade infantil. Bem falava disso em casa, e dizia que era o único que ia de calções, dava exemplos de outros que já usavam calças compridas, etc.. Mas era como chover no molhado. A verdade é que, usando calções, nem podia atrever-me a olhar para uma rapariga, ela haveria de dizer ou de pensar: “cresce e (des)aparece”.

E passavam-se os dias, as semanas, meses, já o ano ia a meio ou mais de meio. Um belo dia, à mesa, pus-me a contar coisas da escola: que gostava imenso das aulas de Física, que tinha um professor extraordinário e não precisava, por isso, estudar em casa (ainda hoje me recordo de quando ele nos contou sobre Pascal, do vazio e da pressão atmosférica); e que também gostava das aulas de História, cujo professor era o mesmo que leccionava Filosofia no 6.º e 7.º anos, um filósofo. Era um bom contador de histórias, contava-as de modo a prender a atenção de quem o ouvia, e com muitos conhecimentos que nem sequer estavam no manual. Falava das civilizações antigas e desbobinava a história dos sacerdotes e deuses egípcios (Ísis, Osíris e Horus), do Nilo e das cheias, das grandiosas construções, das pirâmides e dos faraós, quase todos Ramsés. Mas as três pirâmides mais famosas, de Gizeh, foram construídas pelos faraós Keops, Kefren e Mikerinos e ainda lá estão. Qual não é o espanto dos que me ouviam quando, estando eu a contar e a tentar imitar o professor referindo-se a esses construtores (citava-os de forma  compassada, “Keopssss… Kefreeeen…. e Mikerinoooooos…”), esganicei no segundo “i” de Mikerinos? Tinha entrado na puberdade, já estava na mudança de voz. E foi esse o sinal que convenceu, finalmente, a minha mãe da necessidade de me mandar fazer calças compridas.

Claro que ao princípio os meus colegas se meteram comigo, com chistes do género “a formiga já tem catarro”. A formiga, no entanto, teve que perder o catarro, porque já nem podia brincar aos polícias e ladrões com os miúdos mais novos, nos intervalos. Tinha que ter muito cuidado para não sujar as calças; só tinha dois pares e, se sujasse um antes do outro ter sido lavado e passado, lá teria que voltar aos calções. Isso é que não!

O reverso da medalha teve as suas vantagens. Passei, a partir daí, a ser tolerado nos grupos dos rapazes mais velhos, nos passeios à Praça Velha, atrás das raparigas. E algumas já se dignavam mesmo olhar para mim de soslaio, como quem diz “olha o fedelho, hem!”. Nas aulas também já espreitava para as pernas das raparigas, benditas batas que abotoavam à frente. Muitos anos mais tarde vim a saber que uma matulona dessa turma tivera um fraquinho por mim. Imaginem só, por um puto de catorze anos!

No que me diz respeito, o tempo devia ter parado aí, entre esses meus catorze e os dezoito. Eu tinha tempo para tudo: estudo, desporto, música, dança, fotografia, jornalismo, teatro, rádio e etc.. Namorar a sério, isto é, já com o propósito de construir a partir daí “uma vida”, foi no final desses anos. Comecei a desejar que o tempo passasse muito depressa para começar, tão cedo quanto possível, a viver. Viver era, para mim, ter trabalho, ter mulher, ter casa, ter filhos, ter carro, ter férias, ter, ter e mais ter. E toda a vida lutei por ter. Mas afinal para quê? O que é que eu ganhei com essa vida? Quando me for embora não levo nada… Mas mesmo nada! Nem sequer estas recordações, que ainda são o melhor que tenho. Afinal o que é viver? Ter? Não. A vida só começa depois da morte, se ficarmos na memória dos que ficam. Quem fica na lembrança, não morre. Pascal continua vivo em mim, tal como os meus professores de Física e de História.

Tão compenetrado andava eu a pensar na vida e na morte, que não imaginam o susto que apanhei quando o Jaime me puxou pela manga e me gritou aos ouvidos:
– Ó homem! Joga! Estás para aí há que tempos a olhar para as cartas, a pensar não sei em quê. Ganhar ou perder, paciência! A vida é mesmo assim!

E perdi.

– Vai mais uma partida?

– Porque não?

Henrique Sousa

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