Simplicíssimo

Certas noites

Assistia ao único canal que não exibia desfiles.Era noite de carnaval e a TV estava ligada apenas para convencê-lo de que fazia alguma coisa.Os lanches que reservara para a noite toda já não passavam de migalhas esmagadas no chão,semelhantes a confetes de festas.A penumbra da sala fundia-se constantemente com as luzes monocromáticas vindas da rua.Os gritos extasiados dos transeuntes aguçavam sua imaginação.Planejara não sair de casa,porém a agitação da cidade era tão estonteante,aconteciam tantas coisas nas ruas,bares e praças que parecia-lhe inverossimil não haver,dentro de tantas interações,algo reservado para si.Sabia que se arrependeria caso ficasse em casa numa noite tão convidativa.

Sempre que se arrumava para festas tinha a sensação de não ser devidamente notado.Por isso,saiu do jeito que estava,sem roupa nova nem banho tomado.Atravessou a avenida principal fumando e conjecturando como mascararia sua falta de pendor para o carnaval .Não era,definitivamente,como os outros,pois não conseguia ser em um dia algo que não fora durante o ano inteiro.Pelo contrário,não compreendia essa metamorfose social,esse súbito sentimento de animação que se apodera das pessoas em tempos de folia.Talvez fosse esse um sentimento corrupto e intruso,porém discreto e sorrateiramente introduzido nos subconscientes.Que diferença fazia?Estava em busca de contato e sentia-se,naquele momento,mais inclinado ao instintivo do que ao racional.Tornou a conjecturar e concluiu que a falta de talento não seira obstáculo:manteria-se sempre três doses acima dos outros.
No bar engoliu três doses de conhaque de uma só vez,desejava efeito instantâneo.Comprou um chiclé e,logo após,riu de si mesmo ao conceber a idéia de que comprara três doses de personalidade e um disfarce aromatizado.Decidiu,então,que iria ao clube,abriu espaço entre as pessoas e saiu.Ia agora por um caminho deserto,tocando uma guitarra imaginária-imitava os riffs com sons guturais.Com muita graça tocou Hendrix,Vaughan e tudo quanto admirava.Como já avistava o clube,tratou de cheirar o sovaco,checar o hálito e arrumar o cabelo no retrovisor de um carro.

Sentiu tesão ao ser revistado pela segurança.Nunca sentira toque feminino que tivesse semelhante tenacidade.Entrou decididamente,visto que anciava por aderir-se á multidão,que apinhava-se e dançava freneticamente os hits da moda.Apesar de preferir as velhas marchinhas ,permitiu-se ser levado pela música.

Queria fazer parte de todas as rodas,fazer frente a todas as mulheres,penetrar em todos os corações.O ambiente estava inspirador e inflamava de voluptuosidade seu espírito.Por um momento teve a plena certeza de amar todas as pessoas.

Dançando e observando quase não percebeu o tempo passar.Passaram-se horas e,apesar do esforço,não havia mantido contato satisfatório com ninguém,exceto com os vendedores de bebidas..Via tudo como se assistisse a um filme,no qual era-lhe impossível contracenar.Todas as possibilidades estavam fechadas,era um corpo estranho no meio de tantos convencionalismos sociais.Em nenhum momento da noite,desde sua casa até ali,deixou de ser expectador.

Fora do clube,com as mãos no bolso,avistou a multidão ir em bora.O dia amanhecia.Ficou um tempo parado e logo tomou rumo para casa:lembrou-se que precisava limpar as migalhas do chão da sala.

Artur Marquez

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