Simplicíssimo

Estio

“Eu, filho do carbono e do amoníaco”,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.”

Augusto dos Anjos

Estio:

Com remorso ele olhava para quem estava a sua frente, e pensava! Não temos a mesma vida, mas a mesma importância para algumas pessoas; em sua mente perturbada pensava em violência, nos mais variados níveis, queria aniquilar qualquer um naquele dia, tudo seria possível; em sua cabeça rápidas imagens de atos violentos desfilavam; tudo visto por ele na TV, já se encontrava anestesiado e farto de ver sangue, estupros, enfim queria poder ter oportunidade de poder pratica-los, queria se sentir impressionado com sangue alheio entre seus dedos, e poder se engasgar, ao presenciar o medo expressado por quem morreria por suas mãos, o olhar, a dor , o desespero, de implorar a vida que não é a mesma, mas que tem sentido para muitos. A situação não é de se colocar no lugar de ninguém, mas medir a distância entre estes dois extremos, o olhar de quem mata e o de quem morre e os de quem olham tudo pela TV, não há na morte sensibilidade que explique esta experiência de se ver morrer por outro que continuará a matar e determinar o seu fim com ou sem requintes de crueldade. A morte que arrasta seu sangue pelos jornais e bem diferente daquela que vem com a velhice e outras doenças congênitas ou adquiridas, ela tem o peso de uma faca expondo vísceras, mutilando um corpo, atravessando órgãos, cegando, queimando, afogando, quase impossível enumerar variações, ela não carrega em seu punho foices e nem veste preto, não chega a ser tão figurativa assim, mancha nossas vidas com perdas.

Mas,resolveu que neste dia viria a perdoar todos os transeuntes, não haveriam vitimas fatais por conta de seus delírios queria agora dormir e se ver livre da idéia de morte, mas a morte é a cola da vida, não se dorme sem ela as espreitas, a cada hora de seu sono seu corpo desequilibrava em espasmos e alucinava em gritos, acordaria com o corpo marcado de hematomas e a face desfigurada pelo medo de seus sonhos, certamente começava a viver sua morte, a hecatombe de uma mente, o passamento de suas idéias, o fim de sua normalidade, começava ali a violência da loucura.
O delírio ao escutar qualquer som e associa-lo a gritos, as lembranças, a calma como toda esta loucura dimensiona seu mal e retalha o caráter decompõe a memória, exila pensamentos, o homem que ponderou não assassinar pessoas sofre sua metamorfose e desfigurado pela loucura assina papeis em branco, aniquila seu papel na sociedade, seu olhar agora se assemelha ao de quem morre ao ser flagrado em rua escura e lhe tem o brilho dos olhos apagados, em sua loucura todos os dias são escuros, a chuva penetra seu corpo, gesticula sozinho em seu hábito de dialogar com alguém, imagina que as ruas são os imensos corredores de sua casa e ali anda infinitamente perdido, não a quartos para abriga-lo. Imagina-se sendo ofendido por todos e ao passarmos somos ofendidos por ele, também seremos alvos de sua fúria em algum momento, quando ele se imaginar agredido.

Mas seu amor esta perdido por alguma mulher que ele nunca irá tocar em sua infinita loucura, e quando a imagina fica resignado, silencia. Em seus surtos esbraveja com tudo a sua volta, a loucura se liberta nos surtos?(alguém pergunta!). O homem que imagina ser motorista de automóvel, e conduz seu corpo por entre veículos na cidade grande manobrando seu volante, os andarilhos que percorrem a cidade falando aos ventos, o apanhador de trecos, com suas sacolas cheias de objetos que para ele são úteis , existem aqueles que se confundem em meio as pessoas que ocupam os coletivos, estes silenciosos lançam seus olhares perdidos e vagam sem direção, seria somente solidão?

Carlos Robson Mendonça da Silva

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