Âncora de sanidade – parte 2

Manhã de domingo. O olho que insiste em ficar aberto não corresponde à vontade de seu dono. Este quer ficar esperando a segunda-feira e ter novamente seu dia preenchido, o tempo passando por entre os dedos e o corpo pesado do esforço físico que realiza… Manhã de domingo. O olho que insiste em ficar aberto não corresponde à vontade de seu dono. Este quer ficar esperando a segunda-feira e ter novamente seu dia preenchido, o tempo passando por entre os dedos e o corpo pesado do esforço físico que realiza para cumprir suas tarefas do trabalho.

O nome na parede persiste. Talvez fosse bom pintá-la. Passar uma tinta preta e cobrir definitivamente aquela lembrança. Ainda se lembra do dia que seu amigo veio até o apartamento e pichou a parede branca, recém pintada com cal, com aquelas duas palavras. Naquele dia, mal podia falar após o pileque que tomara. O objetivo do pileque era esquecer. Do amigo, era trazer as memórias que fugiam, ou se escondiam, há muito tempo. Estas carregaram consigo um mínimo de sanidade capaz de manter o intento da vida, da continuidade, do futuro incerto ou, do popular, a pulga atrás da orelha. Uma vertigem que instiga o ser humano a atirar-se do precipício apenas quando pode ver o fundo e saber onde vai bater.

A marcha que ecoa na sua cabeça todos os dias antes de dormir é a mesma quando acorda. Vem dos passos largos de uniformes que varriam as ruas durante o toque de recolher e impediam as pessoas de sonhar, de ver a Lua ou aquecer-se ao Sol.

A escada da vida tinha se partido. Seus passos firmes nos degraus, sempre na ascendente, o fizeram altivo, forte e objetivo. Trabalhava e aproveitava seus dividendos curtindo a vida, fazendo o que mais gostava no momento que desejava. Conheceu pessoas interessantes, mas ninguém que valesse realmente a pena até que o amor o arrebatou. O sonho de futuro que dividia com seu sócio e melhor amigo ficara completo daquele momento em diante. Enquanto era o terceiro, porque seu amigo era casado, sentia que algo lhe faltava. Mas agora, tinha encontrado a felicidade e uma companheira que trazia na docilidade do olhar a calmaria para as nuvens que turvavam-lhe os sentimentos como se vivesse em constante tempestade.

Fez dos dias uma espera para encontrá-la. Suas vidas tão distintas eram como estradas convergindo para um bifurcamento, inevitável continuar como uma única via mais larga e bela.

Levanta-se o filme que passa diante dos olhos, revela-se através do pano que insiste em refletir seu nome. Talvez fosse melhor pedir novos documentos, como se fosse um mendigo que migrara de outro país, adotaria o popular: José da Silva, um ponto no meio da multidão infinita de pessoas que circulam por esse país com esse mesmo nome. Era algo a pensar durante o dia e um bom motivo para separar-se da sombra escrita na parede. Levantou-se e saiu o mais depressa que pôde. Nadar no rio e quem sabe liquidar de vez com aquela identidade: Roberto Anhoffen.