Meus dentes, minha história

Esses dias vi na TV uma mulher simples, da periferia de São Paulo, dizer a um repórter que a entrevistava o seguinte: “um sorriso bonito é garantia de emprego”. Achei a idéia dela esquisita, mas entendi o que quis dizer.

Esses dias vi na TV uma mulher simples, lá da periferia de São Paulo, dizer a um repórter que a entrevistava o seguinte: “um sorriso bonito é garantia de emprego”. Achei a idéia dela esquisita, mas entendi o que quis dizer. Por não ter os dentes encaixados nos devidos lugares, ela encontrava ali a desculpa para os seus problemas. Se ainda está desempregada, culpa do sorriso. Se ainda está solteira, culpa do sorriso. Se não surgem oportunidades em sua vida, culpa do sorriso.
Os meus dentes deram bastante trabalho. Aparelho Expansor. Aparelho Fixo. Aparelho Extra-bucal. Aparelho Móvel. Usei de tudo para garantir o futuro! Durante oito anos, os “braquetes” dormiram e acordaram comigo. Eles caracterizaram o meu rosto e serviram de referência em momentos difíceis: “tu viu um guri magrinho e de aparelho por aí?”
Mordida cruzada, arcada superior projetada para frente, perda de um dente frontal, número recorde de sisos entre as pessoas que conheço: cinco. Essas são apenas algumas histórias que já passaram pela minha boca. Sem contar as famosas e inevitáveis situações de constrangimento como, após a refeição, ser vítima de chacota por ter um alface preso nos “ferrinhos”… Volto a lembrar do que disse a mulher da TV: “um sorriso bonito é garantia de emprego”.
Alguns dizem ter medo de dentista, não entendo os motivos. Ao longo do tratamento, freqüentava o consultório a cada quinze dias. Elásticos, borrachas coloridas, aro mais firme, flúor, restauração, enfim, sempre havia uma novidade! Os colegas perguntavam “quando vai tirar?”, eu respondia “acho que no fim do ano”. Foram oito festas de reveillóns em que o aparelho era a única parte do “figurino” prateada.
Nessa semana tudo vai mudar! Finalmente vou conhecer os meus dentes. Alguns dizem que a primeira reação é de sentimento de falta, depois vem o desgosto, parece que os dentes são grandes demais, e só na segunda semana é que a gente acaba se acostumando. Prefiro continuar concordando com a mulher da TV. Aliás, com uma correção na frase: “um sorriso bonito é garantia de satisfação pessoal”. Talvez a retirada do aparelho não faça uma grande transformação na minha aparência, mas eu sei o quanto foi difícil deixá-los como estão e por isso valorizo cada milímetro entre eles, cada forma, cada altura…