Simplicíssimo

O Alienado

O Alienado – por Rodrigo Monzani

"Nas entranhas da noite, nada é palpável e exato,
nem mesmo o teu rosto rubro."
Joanyr de Oliveira,
in O Grito Submerso, 1975

As orações fúnebres mais indulgentes não puderam deixar de dar lugar à inevitável moral burguesa, a qual não perdeu a chance de comparecer a uma ocasião tão instigante celebrando e censurando a bebedeira fatal (haveria vício mais apropriado e mortal a uma natureza apaixonada?) com a insistência que poderia levar a crer que todos os escritores de renome do mundo são anjos de sobriedade, exceto aquele poeta agora morto.

O clamor foi grande, causou o escândalo enfático e voluptuoso de um suicídio, mas naquele cadáver, cujo nome fora submetido à gloria de poucos por tanto tempo, não foram encontrados sinais de uma morte assim. Talvez procedimentos desconhecidos que assombram a imaginação o tenham seduzido como um dos temas de suas palestras sobre O Discurso Racional, mas morrer em seu prórpio escritório, com o gargalo partido de uma garrafa de vinho De Grâve na mão e uma folha quase em branco em seu bolso deveria ter sido material para que seus detratores, os mesmos da moral burguesa, notassem que seus poderes de mistério e sedução eram tão grandes que somente poderiam ter sido motivados por virtudes.

Sobre suas palestras, estas eram da mais inspirada eloqüência e inteiramente cativantes e proveitosas. Não era o que se chama de frasista – algo detestável – e, aliás, sua palavra, assim como sua pena, tinham horror aos maniqueísmos convencionais; mas um vasto saber, uma linguagem poderosa, os estudos sólidos, as impressões colhidas em diversos países faziam dessa palavra um ensinamento. Sua eloqüência, essencialmente poética, cheia de fina metodologia, e ao mesmo tempo movendo-se fora de qualquer método conhecido, um arsenal de imagens retiradas de um estado moral e psíquico pouco frequentado pela maioria dos espíritos, uma arte prodigiosa que deduz, de uma proposição evidente e absolutamente aceitável, sínteses secretas e novas, que abre perspectivas espantosas, e numa palavra, a arte de arrebatar, de fazer pensar, de fazer sonhar, de arrancar as almas do lodo da rotina, estas foram as faculdades das quais muita gente guardaria as lembranças. Mas algumas vezes – ao menos é o que se diz – o poeta, comprazendo-se num capricho destruidor, chamava bruscamente seus amigos de volta à terra com um cinismo torturante e demolia brutalmente a obra de seu racionalismo e espiritualidade. Aliás, era pouco seletivo na escolha daqueles que o ouviam, assim como para as inteligências superiores, para as quais qualquer companhia é considerada proveitosa e boa. Era um desses certos espíritos, solitários em meio à multidão, que se alimentam do monólogo, e que em relação ao público agem apenas com educação. Em suma, uma espécie de fraternidade baseada no desprezo.

A vida do morto, seus hábitos, suas maneiras, sua aparência, tudo aquilo que se constituía o conjunto de seu caráter aparecia como algo de tenebroso e de brilhante ao mesmo tempo, existiam cartas exaltando sua encantadora presença e até mesmo suas culpas e vícios censurados de poeta. Uma das cartas dizia assim:

"A primeira vez que nos vimos foi em Astor House. Enquanto estávamos à mesa, sua esposa, uma mulher de rosto rubro e olhos verdes inexatos, me passou seu poema, sobre o qual, disseram-me, o autor gostaria de saber a minha opinião. A música misteriosa e sobrenatural desse poema estranho me penetrou tão imediatamente, que ao saber que o poeta gostaria de ser apresentado a mim, experimentei uma sensação singular parecida com o pavor. Então, ele surgiu com sua bela e orgulhosa fronte, seus olhos sombrios que lançavam uma luz especial, uma luz de sentimento e de pensamento, com suas maneiras que eram uma combinação intraduzível de altives e de suavidade, cumprimentou – me, calmo, grave, quase frio; mas essa frieza vibrava uma tão evidente empatia que não pude deixar de ficar profundamente impressionada. Não pude também deixar de notar o clamor de seu coração para com sua esposa, o amor evidente em seus olhos para com ela… Desde então, nossa amizade se desenvolveu naquilo que para mim parecia ser a luz mais bela de um sorriso benevolente e das atenções mais graciosas e corteses."

Em sua obra nunca há amor, a idéia principal sobre a qual giram suas poesias e livros é completamente outra. Talvez ele acreditasse que a prosa não fosse uma língua à altura desse estranho e quase incompreensível sentimento. Sobre isso, uma outra carta, encontrada como prova suprema do acaso e que dera àquele caso os ares de crime, dizia:

"Quando fui obrigado a viajar, mantive grande observação e um relacionamento regular com teu marido, senhora, nisso tentando obedecer as tuas vivas solicitações de decodificar-lhe a rotina e reconhecer o momento certo para… enfim, sabes bem o que quero dizer. Quanto ao amor que teu marido sente pela senhora, não poderia dizer-te que já tenha visto ascendência mais salutar exercer influência sobre o espírito de um homem. Guarda-te, certamente, incomensurável doçura, o que para mim é nada mais senão um espetáculo delicioso. Penso que a senhora tenha sido a única mulher que ele tenha amado sempre verdadeiramente… ‘minha bela de rosto rubro’, ele diz… não posso entender os motivos desta minha missão que executarei, sabendo que, de certo modo, minha vida trilhará o caminho do arrependimento após… enfim, sabes bem o que quero dizer…
Atenciosamente, Charles B."

Essa foi a assinatura, Charles B.

A folha quase em branco encontrada no bolso do morto concluíra a investigação e a vida do poeta, algo único e que poderia provar conclusivamente o que, por fim, lhe privara do nosso mundo:

"Querida senhora,
Tive ainda há pouco um encontro com meu pobre e jovem amigo Charles Baudelaire. Sim, ele ainda sonha em se manter como poeta e escritor, mas tem um mundo de oportunidades pela frente. Seus dezenove anos provarão num futuro breve que eu pude ensiná-lo o melhor daquilo que sei, ou o que julgo saber de melhor. Esse meu jovem amigo veio matar-me, disse-me ele, a teu mando. O pobre ainda não tem meios de sobrevivência consistentes e a miséria lhe trouxe, hoje, a minha presença com tal intuito. Disse-lhe para ir. Meu coração, a saber desta tua decisão, parará sozinho dentro de breve, dentro daquilo que chamo e agora sei que certamente nada mais é do que, senão, melancolia e decepção.
Com eterno amor, seu marido."

E seu coração de poeta, sabendo que o amigo lhe dissera a verdade, parou.

Rodrigo Monzani

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