Simplicíssimo

Saudades

Uma gaivota pousa em lentidão na pedra do cais. A luz por frestas percorre ao redor a janela do quarto, espiando inicialmente tímida para num raio se interiorizar, sem licença cintila-se ao desmantelar dos sonhos.

            Salta da cama como se atrasada para os primeiros raios, para o vento ainda frio nos deslizes do horizonte. Arruma o cabelo, desce a escada com uns cachos a flutuar. Vê rasteiro a porta da entrada um cartão-postal. Segura-o, na frente a imagem de uma Vênus recostada entre pedras, a figura datava do século XVI. Ecos temporais lhe vieram à mente, enquanto lia apenas duas curtas inscrições: Saudades Lourenço. Lourenço?

            Cinco anos ela o esperava por saudades? Sabia não ser, era algo diferente, um vazio dessemelhante a si, como se esquecer de si em desencontros e lembrar do outro nos momentos inesperados. Mas isso não fazia, então não poderia ser saudades o que sentia. Parecia um olhar lento a tudo ao redor, pousando o mundo naquele momento em suas mãos, desabrochando-o como uma pétala a cada segundo. Cinco meses esperou em sensações de ameixas crescendo, nos cabelos semeando vegetais pelo vento, para ter a certeza que sua alma era feita de esperas, conchas, rosas.

            Ainda era cedo, os primeiros raios da manhã nasciam transbordando a claridade por todo o cais. Em cinco minutos o sol já resplandecia em reflexos flácidos. Esperava e as vozes da cidade iniciavam contornos audíveis, ela escutava as ondas de seu coração, no espaço do porto, no espaço entre a vida e o acontecer. Fechava os olhos e lembrava sonhos. Ao redor as gaivotas circulavam segredos no ar.  

           

... Carol ...

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