Simplicíssimo

Som e silêncio

Preciso ouvir o silêncio, da tarde vazia em venezianas e luz. Preciso ouvir o silêncio rasgado regando memórias. Mas o que me doía não era ausência de nitidez das paredes, das palavras presas em dicionários, mas as vitrines de esferas guardadas em segredos. Sei que pronunciá-las seria destruí-las. Por isso, resguardo em volta me agitando por unhas, cravando as paredes, até os dedos ensangüentados, ferindo de sal a alma que é preciso liberdade. Mas o que me doía era ver a tentativa de engaiolar a luz, numa ânsia de furtá-la de mentir pra si mesmo, para fingir. Às vezes é o que ocorre com uma menina para ser mulher, é preciso mover-se sem destruir o mesmo vaso, o que de alguma forma seria inevitável.

Ser pássaro um dia é conter traços de vertigens e asas misteriosas que, se alastram em azulejos e sua luz transpõe as paredes do quarto, da cozinha para a sala, e novamente para o quarto, e por isso um dia e tudo, ondulações de sentido rastejando origens. Triste. A parede do quarto era secular ela tem o cheiro doce da flauta de Pã. Encosto os ouvidos no chão por comunhão, mas não ouço a cor de teus lábios. Brancos eram os dias anteriores soterrados nas paredes de paisagens pastel, esfumaçando os versos em cantos e vozes. A voz da lembrança era posterior ao ruído do silêncio, era a urgência do momento, a mesma urgência que precisávamos para as acácias, margaridas e orquídeas quando mudavam de endereço em minhas janelas. Mudavam para girassóis urbanos. Os dedos cravavam mais saídas, nas manhãs as palavras desalinhadas conviveriam com ilhas, com flor-do-dia imitando guarda-chuvas, para absorver formas expressões gestos de giz da flor-de-lis. Ela era quase borda de um dia todo ao meu redor, por isso não me distraio e não digo, dizer seria denunciar o segredo, desnudar sua destruição, revelando o medo mais intrínseco da luz que partia sem fronteiras. Mas eu não parto.

Parto para a cidade de mim para outro ponto, de palavras desajustadas, temo. Concentro-me no som, retenho a atmosfera, não há ruídos. A imaginação era posterior aos teus lábios que me dizias tanto, e tanto e eu não escutava em desculpas. Não tive método para te seguir, suas palavras velozes dançavam desalinhadas descompostas. O meu pensamento era silêncio tentando adivinhar os teus. Desacompanho ela que nunca os lábios calaram, nem flor nem verso derreteram-se pelos quartos. A ausência dela era meu silêncio e se partiam em segredos em sossegos remotos, antigos pela janela, pela mesa e pelas xícaras tilintando aos redores da cozinha.

... Carol ...

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