Simplicíssimo

Timoshenko

Nunca me relacionei, até hoje, com pessoas do Leste europeu. Vejo-as principalmente no supermercado, nas compras. Algumas bem vestidas, com casacos novos de pele. Muitas já falam o Português, bem sei. Mas não as vejo em interacção com os autóctones. Bem, em abono da verdade, os autóctones também convivem pouco entre si. Mas não escondo a minha curiosidade em relação às pessoas que deixam o ambiente em que nasceram e se criaram para se aventurarem a tentar a sua sorte noutro local onde, quando chegam, nem uma única palavra do que se lhes diz percebem. Também já passei por isso, e sei o que me custou. Mas a minha história não é para aqui chamada, o que eu pretendia era mesmo falar de um ucraniano com quem tive um breve contacto na caixa do supermercado. Creio bem que se chamava Timoshenko, tal como a mulher que foi primeira-ministra da Ucrania, salvo erro.

Timoshenko estava à minha frente na fila para pagar, eram 19 horas, mais coisa menos coisa, já que não uso relógio. Aproximava-se, pois, a hora do jantar e eu tinha ido comprar a minha ração e mais qualquer coisa de que precisava. Reparei, inevitavelmente, nas compras do Timoshenko: um pão de forma e uma embalagem de queijo às fatias. Possivelmente o jantar dele nesse dia. Fiquei então distraído a olhar para os objectos dos expositores que antecedem a saída da caixa. Nisto, apercebi-me que havia um problema qualquer que fizera parar a fila de pagamento. A rapariga da caixa tocava a campaínha para chamar um colega com poderes mais alargados para desfazer um registo qualquer.

O ucraniano (era a vez dele) virava os bolsos do avesso à procura de moedas que lhe faltavam, e dizia: “Não. Não tenho mais. O queijo fica”. Bem, também já me aconteceu ter que deixar alguma compra por não ter dinheiro na altura. Mas neste caso era diferente, imaginei o homem a comer o pão sem nada, e reparei então na figura do Timoshenko. Calças de pano, uma camisa de um xadrez castanho e vermelho de muito mau gosto e, por cima, um blusão de ganga muito coçado e largo, já que ele devia estar magro. Homem já batido, teria mais de cinquenta anos, face com sulcos marcados, talvez pela preocupação existencial física e até mesmo moral.

Voltei-me para a rapariga da caixa e prontifiquei-me a pagar o que faltasse, o homem que levasse as suas compras. Ele compreendeu e agradeceu, reconhecido, mas sem perder a dignidade: “Obrigado, senhor. Eu…, **m’shenko.” E foi-se embora. A rapariga da caixa, que já o conhecia, comentou comigo a seguir: “Sabe, no seu lugar teria feito o mesmo”. E prosseguiu: “O homem trabalha, mas manda quase tudo para a família. É um bom homem”. Senti um nó na garganta, e engoli a saliva. Mas a rapariga da caixa, com quem nunca falara antes, cumprimenta-me agora de todas as vezes que lá vou comprar o meu jantar, como se já fôssemos velhos conhecidos (e cúmplices).

Henrique Sousa

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