Simplicíssimo

Da cor daquele céu

Não quero ter que habitar
Um corpo estranho, sem jeito
Assim lânguido, intépido
pálido velho ou senil
Quero a magia do sorriso
De quem nasceu satisfeito
De quem serviu a senhores
Sem jamais tornar-se servil

Quero povoar-me dessa menina
Antiga que ora me habita
E não me deixa sozinha
Nem por um breve adeus
Pássaro Nêmesis sobrevivente
Dos dez mil laços-de-fita
Guardaste o primeiro retrato
Do meu pobre riso no teu
 
Só contigo me atrevo a voar
E entoar as coisas mais loucas
Em uma única voz como um eco
Um só vão pensamento
Chego a rir das feridas
E a celebrar a pouca vida
Enxergando num poema
A cura e o melhor ungüento

 […]

E quando enfim empinarmos
Todos os tantos versos
– pipas de uma vida! –
E sob o sol que se apaga
No frio da noite de cobaltina
Vier a implacável lembrança
Da nossa infância então perdida
Cantaremos – sim, de memória e
bem baixinho! – nossos secretos
Folguedos de meninas!
 
* Para a minha vó Luzia, cuja Luz é azul e reluz para mim todo santo dia!;))

Lilly Falcão

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