Simplicíssimo

Mania de perfeição

Sentado e desconfiado, Leo tomava seu café no alambrado do Coffee Shop e, como quem não quer nada, mirou o rosto daquela bela moça de olhos de mel iluminados sob os raios de sol que se despediam.

Uma visão fascinante para uma alma solitária há tanto tempo.

Ela, discretíssima, parou à mesinha do lado e, como quem quer tudo, sapecou:

– E aí? Tudo bem contigo?!

O homem antigo olhou para o relógio, confirmou as próprias horas, fez-se de morto, soprou o café fumegante, arriscou olhar para os lados mas, vendo que era consigo mesmo, não pode esquivar-se:

– Ahn, comigo? Tudo bem…e você?!

Pronto, estava estabelecida a conexão entre um ser humano e uma sera humana, como diria aquele dileto ouvinte madrugador de rádio interiorana, ao endereçar sua música favorita para a amada…

A moça tinha ares de quem gostava de conversar sobre a crise do petróleo a partir da intervenção americana na construção do oleoduto paquistanês. Mas gostava também de sorrir e de café… Ele temia acompanhar-lhe com vagar o raciocínio mas arriscou:

– Não quer sentar-se comigo?

E o pior é que ela aceitara, sem pestanejar. Ai do céu, era só o que me faltava, pensava. Não se pode mais tomar um simples café nesse país sem ser abordado por sei lá eu quem puxando conversa. E eu lá entendo de gasoduto? E se ela for casada? Noiva ou enrolada? Eu tenho cada uma. Eu e essa minha boca. Não poda ter calado essa bocarra? Podia ter dado um gole no café fumegante e o prejuízo seria menor. Eu mereço. Preguei chiclete ploc na cruz. E de hortelã!

Disfarçava seus temores num sorrisinho de quem quer a conta tão rápida quanto um expresso. Precisava sair dali. Suas experiências com o sexo oposto pediam um acréscimo na Teoria Evolucionista: adquirira a convicção de que as mulheres descendiam dos dragões. E das bruxas.

É que depois de muito apanhar da vida – e não dar uns socos bem dados de volta – ele concluíra pela a impossibildade de convivência social entre um homem e uma mulher decentes. Se é que essa última existia, realmente. Por fim, ficara impossível o diálogo entre ele, Deus e o mundo.

Com isso no juízo, bateu até no Tibet, onde, ao invés de repostas, adquiriu foi uma virose mononuclear e uma depressão que nem prozac-plus remediara.

Tibet falido – os monges não eram perfeitos. Casamento falido – a mulher era imperfeita. Emprego falido – o chefes erravam. Ele, falido – o erro em pessoa. E assim, sob esse ceticismo, passara os últimos vinte e tantos anos sem perceber que não vivera.

Agora estava ali, negando que estava. Hipnotizado pelo olhar daquela mulher e desviando o olhar a todo custo. Curiosíssimo sobre os temas que ela expunha com calma e convicção mas não se rendia. A dinâmica psíquica criada pela sensação de falência é uma das mais cruéis. Muitas vezes, irreversível. Olhamos tanto para trás, para baixo, para os lados, que esquecemos de olhar exatamente para onde é imprescindível – para adiante.

Aos poucos ele entendia e as fichas iam caindo todas. Plim. Plim.
Plim…Pediu, mais uma xícara para a recente companhia…

Aquela mulher era mais do que sedutora. Tinha um olhar enigmático de quem sabe o que está dizendo e a quem está dizendo. Tinha um sorriso cativante, uma alegria mais que contagiante. Conseguira o feito de renovar-lhe a crença num único encontro! Não dava para ignorá-la e simplesmente sair dali sem saber quem ela era…

– Para onde mesmo estávamos conduzindo nossa conversa? Perguntava ele com indisfarçável desassombro.

– Para onde o senhor necessariamente desejava ir. Dizia ela com a calma de quem não teme as próprias respostas.

O importante mesmo é que nossos amigos se encontraram num café e que isso se deu sem que ao menos soubessem como se chamavam.

– Vamos nos falar ainda, não é?! Perguntava, temeroso. – Meu nome é Leopoldo, mas pode me chamar de Leo. E o seu?

– Expectativa, mas se quiser, pode me chamar sempre de Ex…
– Perfeito! Saltava da cadeira e já trocava números com a Ex.

Lilly Falcão

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