Simplicíssimo

O Velho Germano

tinha um olho nublado
e o outro era de vidro
e quebrado
manipulava títeres encardidos
e mal cosidos
aos que jogavam moedas no chapéu velho
que se quedava no chão
agradecia com discreta mesura
depois
levantava com dificuldade
apoiando-se na bengala de junco
e despedia-se em alemão
AUF WIEDERSEHEN
eu gostava de vir ao centro vê-lo
tinha ânimo o velho germano
um dia me disse com sotaque carregado:
– há de se ter engenho na vida…
quase trinta anos se passaram
e só agora é que percebi
estou aqui sentado
próximo ao chafariz
e não o vejo
além de mim só todas as pessoas do mundo
passando apressadas por aqui
os pombos disputam espaço
entre os passos das gentes
pra catar as migalhas que jogo
nenhum artista de rua
crescemos: a cidade e eu
o fantoche
hoje
sou eu
que crescido
não caibo no colo do ventríloquo
me levanto
guarda-chuva pendurado no braço
uma última olhada pra trás:
a paisagem é uma foto que guardarei comigo
embrulhada em amarrotados papéis com
cheiro de saudade
AUF WIEDERSEHEN

Para Tiarajú e Ubiratan Carlos Gomes

Cláudio B. Carlos (CC)

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