Simplicíssimo

Um amor distraído

Era um amor distraído que se esquecia de dar beijo na boca e de afagar as crianças. Mas a mãe gostava do pai, a seu modo e o pai gostava da mãe, a seu grosso modo. E na medida do impossível tudo se provia. O nosso tudo era pouca coisa mais do que o nada. Era o que podia o indecente salário mínimo do pai, que era atirado como bofetada sobre a mesa todo dia 5. Ouvia-se na casa inteira o tilintar das patacas, que em rodopio iam se deitando e se acalmavam sobre a madeira carcomida pelo cupim, da mesa da cozinha. E depois o silêncio. O lampião de chama trêmula pendurado no baldrame, o cheiro do querosene queimado, a fumaça negra que subia. Picumã. Tudo tudo continuava como antes. Manhã cedo o pai saía. A mãe lavava roupa pra fora pra engordar o que por insistência ou por deboche chamavam de orçamento familiar, descia pro açude com o menor nos braços e só vinha um pouco antes do almoço. À tarde repetia o trecho. O pai voltava no iniciozinho da noite e sempre se queixava de dores e cansaço. Serviço pesado. Eu passava os dias cuidando dos dois do meio, que ranhentos, brincavam com os cuscos e comiam terra. Eu era diferente. O pai falava que eu tinha um brilho nos olhos. Eu sonhava um amanhã e um depois de amanhã e um depois de depois de amanhã e conseguia perceber no meio do imenso nada, a distração.

Cláudio B. Carlos (CC)

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