Simplicíssimo

O pijama azul de meu pai

Das lembranças que tenho, a que sempre me vem como um sonho recorrente, é a do pijama azul de meu pai. Era um homem bom – o meu pai -, gordo, de cabelos e barba grisalhos e faces avermelhadas. Era um homem simples, inteligente, mas não culto. Tinha mãos grandes, fortes. Lia de tudo, mas não era letrado. Era um homem trabalhador e honesto. E morreu pobre. Era um bom homem – o meu pai. Tinha seus defeitos, que eu na infância não via. Era humanamente imperfeito. Perfeito para minha vida de guri.
Certa noite após beber vinho e comer churrasco com um tio meu, ouvi meu pai sentado na cama, reclamar da vida e da sorte e chorar. Foi a única vez que ouvi ele reclamar de alguma coisa. Foi a primeira vez que vi ele chorar. E só vi isso duas vezes. Foi a única vez que o vi bêbado. E como lhe bem emoldurava as formas gordas, a cara vermelha, os cabelos ralos e desgrenhados, aquele surrado e único pijama azul.

Cláudio B. Carlos (CC)

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