Simplicíssimo

Hoje (7)

2007-01-07

Mal senti o barulho dos carros de recolha do lixo, dei por
terminada a minha incursão nocturna aos contentores. Eram cinco da
manhã quando cheguei a casa, tresandado a porcaria. Mas estejam
descansados que não irei desviar a conversa para tantos e tantos outros
assuntos que a pesquisa no lixo nos sugere, nem para aqueles que os
poucos noctívagos que eu vi inspiram. Há uma quantidade enorme de
institutos inúteis que só servem para dar tachos aos afilhados dos
políticos e não há um instituto de pesquisa do lixo ou do esgoto. O lixo
é uma fonte valiosa de informação sobre as pessoas. Com o esgoto, por
exemplo, e tendo em consideração a máxima “Diz-me o que cagas, dirte-
ei quem és”, chega-se à seguinte conclusão: pode-se comer as mais
sumptuosas iguarias, ou apenas a sopa dos pobres, mas expele-se
sempre o mesmo. Como dizia Aleixo: Uma mosca sem valor poisa, c'o a
mesma alegria, na careca de um doutor como em qualquer porcaria, e pode
ser a porcaria de um doutor. Lá estou eu a divagar… Mas com o lixo,
pode-se tirar conclusões ainda mais detalhadas. Senão, vejamos:
Depois de ter inspeccionado diversos contentores de lixo sem
sucesso, e já desanimado, ocorreu-me voltar ao mesmo contentor onde
encontrei o frasco. Ao fim e ao cabo, no saco onde ele estava podia
haver outras pistas interessantes. Dito e feito! Vá lá que ainda me
recordava do saco sem marca, mas com uma cor inconfundível, um
verde desbotado, daqueles sacos que algumas mercearias ainda usam.
A pessoa que descartou esse saco, abastece-se na certa numa dessas
mercearias de bairro, daquelas que ainda dão crédito ao freguês para
pagar no fim do mês, e onde se pode comprar uma cebola e uma
cabeça de alho sem ter que levar uma embalagem de cada coisa que irá
apodrecer antes de ter sido consumida.
De facto, no referido saco não encontrei nenhuma cebola ou
batata podre como nos sacos de marca que eu já revistara noutros
contentores. Também não havia embalagens de iogurte danoninhos
como era mato nos sacos de marca, excepto nos do Lidl onde havia as
mesmas embalagens, mas com marca ligeiramente diferente, e muito
mais baratas, suponho.
Havia, isso sim, cascas de batata, raspas de cenoura, cascas de
limão que se via que já tinham servido para fazer chá, espinhas de
peixe, ossos de frango, cascas de maçã e de banana, cascas de ovos,
enfim, tudo lixo altamente biológico e que provém, muito
possivelmente, de alguém de cultura muito superior às pessoas que
comem pizzas e danoninhos; ou de um pelintra; ou ambos. Nem uma
única embalagem de pizza lá havia. De papel, a única coisa que lá
encontrei foi um envelope rasgado. Trouxe os pedacinhos todos que
descobri, vai-me dar agora uma trabalheira a montar o puzzle, mas
deve valer a pena porque talvez revele o nome da pessoa que deitou
fora o frasco de tintura de iodo, bem como a sua morada, se tiver.

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2007-01-07

Afinal foi fácil reconstruir o envelope rasgado. Faltam alguns
pedaços, mas tem bastante informação sobre o destinatário e
remetente. Agora é só uma questão de procurar…

 

Henrique Sousa

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