Simplicíssimo

Final de Dia

Final de Dia

 

 

 

        Final de dia… Mais um dia? Não o mesmo, meus dias sempre mudam… Sempre… Acomodado? Atado à rotina, à mórbida rotina que a lugar nenhum conduz? Nem tanto. Já estive bem assim, hoje respiro mais ar, mas ah!, p’ra se respirar, quanto ar é preciso! Mas a tensão bastante nervosa dos desejos irrealizados se traduz em belas contrações musculares dolorosas em diversas porções do meu corpo.

 

Inicio a jornada de volta. Muitas curvas, uns tantos carros e muitos tantos caminhões. Uns velozes e furiosos, outros com lentidão meditabunda (estarão embriagados de seu dia?). Fico eu furibundo após alguns minutos… Oba, terceira faixa adiante! A ansiedade me leva a 100…. 120…. FLASH! Caramba, um pardal criou asas e foi parar bem ali, naquele tentador quilômetro… Tudo bem, só fiquei sabendo duas semanas depois. (O efeito didático que essa multa exerceu sobre meu estupefato espírito chorão foi épico).

 

Meus olhos pesam sobre meus ombros que, poéticos em sua resposta, doem e também pesam, e me provocam contorções repetitivas no pescoço. A dor se incrementa ao anoitecer mansuetudinário, de belas cores que não posso apreciar pois meus turvos, espremidos olhos não se apartam da estrada, severa em suas curvas, mal e mal sinalizadas. Bela cefaléia, nessas horas tu és a minha mais regular companheira!

 

O CD insiste em tocar Beethoven… É bom p’ra os meus regressos descobrir seus quartetos… Opus 132… Eis um desejo pleno e realizado! Na verdade o próprio artista parece que nunca estava satisfeito, dizia que sua composição estava ainda longe do que precisava alcançar. Mas que sei eu? Os anos eram tais por ocasião do Op 132, que o alemão vaga-lumeava em sua saúde, vítima da cirrose. Bebida alcoólica pode fazer um belo estrago. Oooops… freada brusca!

 

O carinha da frente freou demais. Que fiasco, a curva não merecia tamanha lentidão. Ultrapassa-lo-ei, assim que possível. O impossível acontece. Passei, mas escolhi mal o ponto: o caminhãozão da faixa contrária se assustou, deu sinal de luz, ao inferno com ele!, eu fiz bem direitinho, deu tempo de voltar bem certinho… Então por que meu coração está pulando?

 

 

 

Canção sacra de agradecimento de um convalescente à Divindade, no Modo Lídio.

 

 

 

            Tal o título do terceiro movimento do Op 132. O cara tinha acabado de sair de uma crise violenta de diarréias, febres, vômitos e tempestades, e quis agradecer. Digam o que quiserem sobre os excessos das ligações que costumamos ver entre a vida de um artista e sua obra. Tá, tá, eu sei que tem a técnica, o movimento artístico e cultural então vigente, com suas normas e idéias, etc, etc.

 

Mas, olha, no clímax do movimento, a impressão é de ser banhado pela luz da divindade mesmo. Não euforia, nem êxtase, nem bravura. Apenas a benção de uma recuperação após um longo e muito humano sofrimento. Uma bênção pela qual o homem, mui humildemente, agradece. E do modo que o compositor melhor saberia fazê-lo, com a música. É engraçado, dirigir de volta p’ra casa e no meio da história chorar um pouquinho mas, como eu já disse, o meu espírito é chorão.

 

O anoitecer… seus tons sanguíneos, alaranjados, enternecidos, que anunciam uma imensidão que já engoliu tantos poetas… Costumava extrair mais sangue de minha alma, hoje em dia é melhor o olho na estrada, do contrário meu sangue vai rolar de verdade. Olho na estrada, e respeito aos benignos pardais. Aves ensandecidas. Raios!

Luiz Eduardo Ulrich

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