Simplicíssimo

Aurora (XLVIII)

XLVIII – Tens o golpe que querias.

Não me demorarei em descrever como Rinaldo conseguiu me ajudar a vencer as grades, serrando-as com um alicate. O fato era que, àquela hora, toda a abadia parecia se desmantelar, um monstro de membros de proporções desiguais que começava a cair lentamente, morrendo do ventre até os olhos, e dos olhos até o ventre.

Ganhei o chão, e tive que caminhar com Rinaldo aos meus ombros entre pavilhões e câmaras muito antigas abrigadas umas das outras mediante amplas passagens, espaços enormes entre uma coluna e outra, e muita escuridão. Entramos num corredor e viam-se outros que se abriam à direita e à esquerda em cujas paredes se abriam nichos, habitados por uma população subterrânea de cativos semimortos. Não havia dúvidas de que alguns realmente estavam mortos, outros completamente nus, sentados no chão imundo e reencostados nas paredes com os braços abertos pelas correntes que lhes prendiam os pulsos em elos negros de ferrugem, sustentados por aguilhões de ferro que lhes prendiam também as costas.
 Era como se o tempo não tivesse cumprido sua obra de destruição porque os olhos entreabertos de alguns, a pele manchada de sangue velho nas quais se abriam órbitas de edemas vazios, rostos marcados por dentes quebrados pareciam gritar por perdão no meio do escuro, parte de músculos e ossaturas à mostra enquanto outros se decompunham em recantos onde suas vísceras davam lugar apenas a esqueletos vestidos por migalhas de carne. Alguma substância gotejava das paredes repletas de tufos esverdeados, e o líquido parecia beijar os lábios ressecados dos cativos, vultos de sorrisos repuxados e ascéticos, outros a quem a piedade ainda conservava a face íntegra com barbas e bigodes imundos, de modo que suas expressões se assemelhavam com a humana, mas a outros restavam apenas as pálpebras entreabertas com a cabeça reduzida a puro crânio, mas com nesgas coriáceas de pele presa e pendurada às maçãs do rosto.Alguns haviam se deformado durante anos, e pareciam como que prodígios da natureza, fetos que acabaram de sair de um ventre diabólico materno, seres desumanos sobre cuja figura contraída sobressaíam de modo artificial planetas arabescos e de cores esbatidas, membros que pareciam bordados mas que estavam corroídos pela ação do tempo e por muitos dos vermes daquelas catacumbas.De outros, dos quais as vestes haviam caído, esmigalhadas pelos dias e pelo ar ressecado, via-se que sob seus farrapos apareciam pequenos corpos raquíticos e emagrecidos com todas as costelas à mostra, cobertas por uma epiderme esticada e repleta de pequenos vermes de olhos translúcidos que emitiam surdos ruídos sufocados.

Pequenos trípodes acesos com finas chamas iluminavam as masmorras, mas alguns estavam apagados. Rinaldo teve que incendiá-los com o fogo daqueles que ainda iluminavam, e a pálida luz que se difundiu entre os nichos revelou –nos o vislumbre do ambiente como um todo. Havia centenas de homens e mulheres cativos a nossa frente, vivos uns sobre os outros.
 Do outro lado da sede, os outros noviços percorriam os corredores em direção a sala do abade. O Carmelita subiu pela escada oriental que dava para o primeiro andar, o lume diante dos olhos, pensando certamente em encontrar algum labirinto assustador. Nada de aterrador. Ficou surpreso, contudo, ao entrar numa sala de cinco lados, mas apenas em um deles se abria, entre duas colunas baixas e encaixadas, uma passagem, uma abertura ampla o suficiente para abrigar um homem, encimada por um arco em semicírculo. Nesta passagem havia uma porta ao fim de três degraus longos, a porta da chave do Pentateuco.

Ao longo dos outros quatro lados estavam encostadas às paredes enormes estantes repletas de livros sem vestígio de poeira, todos catalogados com regularidade, dispostos na ordem do alfabeto cristão, e depois, alguns volumes gregos e outros do hebraico antigo, circundando uma mesa de pedra que cortava toda a sala, da porta dianteira (aberta aos pontapés) até a única janela, rodeada de lâminas de alabastro.
 O Carmelita abriu a porta, e pensou que suas precauções agora seriam inúteis, deixando de se preocupar com Venaro, Ulberico, Umberto e com o franciscano mudo. Encontrava-se agora numa outra sala diferente em dimensões e organização daquela que acabara de atravessar. Era uma sala triangular, exatamente igual àquela do herborista, não muito larga, mas de comprimento mediano e no encontro de seus vértices havia uma estreita escada que parecia morrer na escuridão. Ele ergueu novamente o lume frente os olhos e pensou em descer, gesticulando para o franciscano mudo; mas este retornou um surto de terror ao ouvir um estrondo junto aos portões, a abadia tremia, fazendo com que Venaro, Ulberico, Umberto também deixassem seus postos e procurassem abrigo. O Carmelita desceu, então, só em direção às masmorras; exatamente quando os seguidores de Vicenzo Locci, aliados aos mais diversos interesses de ordens monásticas que ali se encontravam, iniciavam o golpe a Avignon atacando a chegada da delegação imperial junto aos portões, saídos de suas cavernas subterrâneas e dentre os quais se encontravam, sei agora, meu pai, minha curandeira e Barton.

A sede papal caía enquanto Rinaldo, eu e o Carmelita mergulhávamos nos horrores das masmorras em busca de Alermano, e ouvíamos os gritos que acompanhavam a noite, vindos do plano superior, a correria, o ataque, os corações agitados por mil angústias e os ruídos do embate dos revoltados com os guardas, tudo orquestrado num uníssono mortal e estridente que dominava soberano a esplanada.
 Sob a luz de archotes, toda uma sinistra multidão marchava, surgida de túneis e gateiras na escuridão de onde se podia entrever trapos e farrapos, corpos desconjuntados pelo plano de visão desenganado que a bruma trazia; todos com lanças, armas de fogo e talvez somente as pedras não tivessem gênese no contrabando europeu.Junto aos seguidores de Vicenzo Locci, que atacavam pela frente dos portões, e aos monges, que atacavam o império pelos flancos, havia toda uma turba de gatunos, trapaceiros, falsários e saltimbancos, uma caterva acostumada a todo tipo de abuso e vício que se unira ao golpe envolta pelo manto do desprezo. Realmente aqueles peregrinos, numa fila quase interminável, aproximavam-se cada vez mais do torreão central da abadia, e percebia-se também um bando de cegos com as mãos esticadas, questionando aos brados os motivos de suas excomunhões, mancos, leprosos que lutaram com armas em punho até que seus braços se soltassem do corpo, e alguns deles ainda continuavam, agora com os dentes à mostra, a enfrentar os sicários que caíam ora por medo, ora por asco.

O abade ordenara disparar alguns tiros de mosquete para o ar, para faze-los entender que aquele era um castelo santo, mas era como se aqueles tiros tivessem servido de chamariz, e intensificou a balbúrdia bestial que se ouvia, enquanto os primeiros revoltados já ganhavam o corpo da abadia. Pensaram inicialmente que se tratava de uma multidão de pedintes enlouquecidos, e então, junto com os tiros, começaram a jogar-lhes pedaços de pães e restos dos jantares do Concílio, como que para dizer que aquela seria toda a caridade que poderiam obter; mas a multidão foi crescendo a olhos vistos, empurrando a vanguarda aos pés das muralhas pisando aquela dádiva e olhando para o alto como se buscasse algo melhor.
 Alguns dos que se encontravam junto aos primeiros foram atingidos por tiros, mas era como atirar sobre uma cáfila de roedores, os que vinham chegando empurravam sempre mais os primeiros, e os que caíam eram pisoteados pelos outros, servindo como apoio para os que vinham de trás e que enfiavam os dedos nas rachaduras e entre os tijolos, colocando os pés nos interstícios, agarrando-se aos ferros das primeiras janelas, introduzindo seus rostos caquéticos e espumosos nas frestas de onde se via as esculturas santas de Avignon.Sicários se entrincheiraram aos redores, atirando com alguma habilidade, mas era inútil, pois o assalto era enorme e os que cediam eram instantaneamente repostos por uma nova multidão mais afeita ao perigo. Alguns seguidores de Vicenzo já haviam se enganchado nas ameias frontais com suas cordas de pontas de ferro dentado, atingindo com espetos e lanças os guardas pelas costas, endemoniados, rugindo.Ouvia-se debaixo o ruído dos portões que caíam e a confusão, socos, degoles e esquartejamentos com lanças, a vazão ao próprio fel encarniçando-se nos primeiros cadáveres entre as barreiras de espadas estendidas.

Esculturas foram levadas, destruídas, arrastadas, o salão de discussões se tornou um só pandemônio até que as primeiras chamas nas cortinas e nos móveis se ergueram dançantes e agitadas, percorrendo rapidamente os corredores dos quartos à biblioteca, do claustro ao estábulo, dos caldeirões aos lustres.
 As masmorras continuavam mortas, mas alguns dos cativos já percebiam o golpe, e se movimentavam de maneira errante e gritavam sons sem sentido pelas paredes. Foi quando divisei com o olhar o Carmelita, do outro lado, aparecendo por uma saída estreita com seu lume frente à cabeça. Olhei para Rinaldo, e percebi que ele agora espumava, suava frio e já não conseguia vingar os ferimentos de sua recente tortura, cambaleando entre os insetos do chão.

“- É o golpe, Rinaldo!” – gritei, mas ele apenas sorriu pavorosamente com dentes como que feitos de sangue. O Carmelita avançou e quando chegou até nós, Rinaldo já havia fechado os olhos.
Avignon estava caindo.

 

Rodrigo Monzani

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