Simplicíssimo

O Marquês (VI)

“- Quando os fins são grandes, a humanidade não julga o crime como tal, mesmo recorrendo aos meios mais terríveis.”
Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Os longos raciocínios nos quais Arnaud mergulhava nas tardes em seu salão trouxeram a Granier uma idéia até então desmedida em seu desejo: na natureza, agora, havia a necessidade do crime, que é preciso destruir para criar, a criar a partir do momento em que o homem destrói a si próprio. É duvidoso que Arnaud tivesse tais impressões do pós-guerra na Cidades do Ventos como um sentimento profundo, pois sua palavra aproximava-se mais de um sacrilégio, um horror religioso que o levava à tais conclusões.

O velho Arnaud sonhava com o livre, e a liberdade que reclamava não era a dos princípios, mas a dos instintos, daí sua revolta romântica, exaltanto a alma do indivíduo, sua danação, um flerte com os modos sombrios, para justificar um verdadeiro revoltado que não exige a vida, mas as razões da vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz, a não ser uma: a necessidade de uma nova criação a partir da dor da destruição. Tratava-se, portanto, somente de suas recusas pessoais.

Desenvolvida conscientemente, a adaptação de Will ao trabalho e a estes discursos de seu senhorio projetou em Granier um culto diferente ao do pôquer e ao da mentira, porém estreitamente ligado ao seu talento com as cartas: o culto pelo crime.

Se um jogador de pôquer cultua o indivíduo e o movimento, não toma, porém, o partido moral dos mesmos indivíduos, mas tão somente o próprio partido de sua mentira final. No pôquer, a admiração é amoral e somente em lugares fechados, muitos dos quais se é impossível escapar, a falta moral pode funcionar segundo um regime implacável. Salões de carteado são, sem dúvida, implacáveis quanto a seus regimes, onde a presunçosa aliança da liberdade e da virtude social encontra sua idealização no blefe perfeito, sem o qual não há liberdade, nem virtude. Contudo, a lógica do pôquer envolve paixões, e estas invertem a ordem tradicional do raciocínio e coloca conclusões antes das premissas. O blefe é sempre a premissa do jogo e do jogador, nunca sua conclusão.

O essencial não é ainda remontar a estratégias de jogo, mas, sendo o mundo o que é, saber como conduzir-se neles, no mundo e no jogo. No tempo do pós-guerra, a Cidade dos Ventos transcendeu ao inferno das necessidades, e sendo tão necessárias, tudo tornou-se fechado, implacável e mentiroso, como um jogo de pôquer. Um pôquer social onde os raciocínios se sustentavam, mas os sentimentos condenavam coerentemente a imperfeição dos homens.

Assim, pereceram as famílias, as tradições e as boas regras, atiçou-se o fogo dos crematórios; e as virtudes, quando não absurdas à uma necessidade de sobrevivência numa cidade devastada pela guerra, se tornaram acasos ou caprichos. Deus, incompreendido, fez de todos como Ele, e todos, assim, trapaceavam, a cada amanhecer, assassinos cruzavam a aurora da cidade e se esgueiravam até noite adentro. Suas ideologias poderiam, enfim, prosperar.

O crime poderia servir para tudo, até mesmo para transformar criminosos, maltrapilhos, leprosos, sodomitas e assassinos em juízes. Em tais ideologias, a vã filosofia dos novos tempos do pós-guerra na Cidade dos Ventos.

Quando ocorre, em tempos como aqueles, de a sociedade refugiar-se em ideologias onde o crime passa à razão de sobrevivência, ele assume as figuras da própria razão. O crime, antes condenável como um tiro na noite, se fez razão. Ontem julgado, hoje faz a lei. E em tempos de crimes tão cândidos, os assassinatos adquiriram a eficácia imediata.

Artista ingênuo e gênio, Granier era assassino que tinha-se negado muito. Somente assim poderia, agora, negar os outros, totalmente indiferente a seus crimes, tornando-os incrivelmente possíveis. Mas, por ora, a reflexão pode conduzir a mera simplificação de suas regras de ação, como um criminoso comodamente regido pela premeditação e sem desculpas de amor. Não nos indignemos contra tal interpretação, mas Willian Granier era mais do que isso.

Seus crimes se enfeitavam com as vestes da inocência e por uma curiosa inversão peculiar de sentido, desejava-se a morte de suas vítimas. Se o mundo ignorava essa nova sociedade do crime, somente sabendo perfeitamente o que ignorava é que poderia lhe ser indiferente. As pessoas conheciam Arnaud, passaram também a ver Granier mais frequentemente, porém, lhes ignoravam a existência, pois o essencial da sociedade pós-guerra, do pôquer social, não era a revolta, como a de Arnaud, mas sua nova doutrina resumia-se no consentimento total, na não-resistência ao mal, consentir em sentir e sofrer pessoalmente o mal que o novo mundo agora contém.

Religiosos tentaram, e nada puderam fazer diante deste ceticismo social, sem perceber que o sintoma mais grave de nova sociedade não se encontrava no ateísmo, mas na incapacidade de acreditar no que existe, de ver o que se fazia pelas ruas, de punir tais crimes, de viver o que é oferecido. Na cidade dos Ventos, a moral não tinha fé no mundo real.

Em épocas anteriores, houve homens em que a paixão pelo jogo era tão forte que acabava em excessos criminosos, porém, tais crimes eram como o ardor de uma satisfação, e não uma ordem monótona, instaurada pela mesquinhez dos perdedores ou dos donos do carteado. À esta lógica, tudo tende a se igualar, a se anular, e nesta anulação, anularam-se os valores do assassinato, dos quais aquele tempo tão bem se alimentou, levando às últimas consequências a legitimação da morte e do crime.

Deste modo legitimado, matava-se coletivamente aqueles que não pagavam suas dívidas dos jogos. A destruição dos valores nada representava para os mais insanos que se preparavam em suas tumbas recém cavadas para uma morte flamejante. As pessoas morreriam, e muitas delas arrastavam consigo suas famílias, suas amantes, um mundo inteiro.

Havia aqueles que se matavam na solidão, preservando o valor de não reivindicar para si o direito sobre a vida de seus familiares. Todo suicídio era um desdenho à falta de fé e, num desses paradoxos sociais, a aumentava exponencialmente.

Embora sem fé, existia nas pessoas a necessidade do conforto, e portanto, dos jogos. Para dizer que tal vida é absurda, a consciência tem necessidade de estar viva, e não havia modo de manter vivo o beneffício exclusivo de tal raciocínio, sem uma notável concessão social ao gosto pelo entreterimento. Estar consciente era querer jogar, e assim, a era do pós-guerra era também a época do renascimento dos salões de carteado. Era a época do renascimento de Arnaud e Granier.

Rodrigo Monzani

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