Simplicíssimo

O Marquês (VIII)

“- Só se vive no instante dessa união breve, porém viva
de um coração unido à tormenta.”
Mikhail Lérmontov (1814-1841)

Situações desnaturadas, artificiais e, comuns àquela cidade, indignas de piedade revestiam envergonhadamente a nudez da vida na Cidade dos Ventos. O tempo limitado à aparência erudita antiga se fora com seus costumes e covardias, permanecendo agora os suspiros de muitos desejos, afinal, homens são homens desde o fundo, seja no inferno, nas cidades ou no paraíso. Importante notar o quanto é difícil descrever aquela cidade profundamente oculta no marasmo de seus círculos folgados pelo ar poeirento, é necessário filosofia para entender como sua sociedade voltara-se para o crime como uma lei, a sobrevivência no caos, e como aquele Willian Granier descobrira-se humano ao, exatamente, negar sua humanidade. Porém, todo filosofar sobre o crime na Cidade dos Ventos está limitado a uma falsa aparência erudita, aparência esta que a sociedade perdera nos tempos de guerra.

Este hábito a tal vida criminosa, desordenada e tempestuosa tornou-se, pouco a pouco, sua segunda natureza, muito mais fraca, mais intranquila e menos sadia que a vida antes da guerra. Agora os homens pareciam carregar perigosas pedras em seu interior, um interior que não encontrava correspondente no exterior, e de tal oposição nasceu a mentira como necessidade social, o pôquer social para o qual, haja a verdade, Granier havia nascido.

Em uma noite, enquanto varria chão e pouco dos móveis do salão, Granier olhava de soslaio para Arnaud e pensava nos tempos de colheita com seu pai, colheitas perdidas para as ceifeiras, a maior mágoa que tinha agora no coração. Perdera o trabalho nos trigais há alguns meses e com dor vira desaparecr sua maior lembrança de infância. Não era um novo sentimento, mas dava conta do novo tipo de angústia que o habitava num momento em que memórias voltavam a se impor como um simulacro, e não como experiências vividas, pois não possuíam identidade com a sua verdade, a verdade de Granier. Difícil descrever como sentimentos lhe funcionavam sem o apelo emocional, e talvez o grande mistério a respeito de Willian Granier venha de sua capacidade de comover com uma vivência anacrônica, descompassada, marcada por crimes, vulgaridade e rigor. Ou talvez elementos tão contraditórios sejam a única pobre força de seu sopro de vida, envolvendo tanto pelo drama quanto pelo suspense de seus atos, submetendo-nos a nada mais, senão à expectativa de seu próximo passo e de quando Granier poria à prova sua genialidade com cartas de baralho, quando se vingaria de Greenwood sobre a perda do trabalho, e como sofreria torturas pelo assassinato de Valerie.

“- Há de aparecer agora as pestes.” – lhe disse Arnaud, quando parou de escrever a contabilidade num diminuto caderno preto e se reencostou confortavelmente na cadeira de balanço.

Granier varria silenciosamente.

“- É impossível lutar contra duas pestes ao mesmo tempo: a das lavouras e a do governo.” – Arnaud pensava nessas coisas apreensivamente, mas as dizia com ar triste. “ – Não é de admirar que alguns agricultores tenham abandonado as plantações, preferem criar gado, pois dá menos trabalho e mais lucro, ainda que pequeno. Essas ceifeiras… fazem de nossas terras o lodo das guerras, não mais se parecem com o trabalho nos trigais.” – Arnaud prepara seu fumo e fala com gestos folgados.

“- Esse é o teu desejo.” – Granier virou a vassoura na direção do velho.

“- Desejo…”

“- Teu eterno retorno ao desejo de liberdade. Tão frágil e persistente quanto essa poeira.” – ao pensar sobre isso, Granier, pela primeira vez, olhou para Arnaud enquanto conversavam no largo salão inóspito, iluminado por um lustre vitoriano muito antigo onde a luz parecia enregelar, imóvel. Arnaud se balançava na cadeira:

“- Quando não se encontra grandeza em seus desejos, ela não é encontrada em lugar algum, é preciso negá-los ou criá-los. A cultura nasce do desejo, e a própria transformação do homem vem do desejo. Teu espírito, meu caro pequeno, apenas encontrará a verdadeira emancipação, liberdade, na aceitação do que desejas.”

“- Isso poderia ser tudo?”

Arnaud não lhe respondeu, se levantou ruidosamente e olhou pela janela de cortinas puídas e mal colocadas no batente, imundas: “- Nada tenho a desejar, nem para me vangloriar, a não ser a estéril consciência de compreender, até um certo ponto, que tudo que existe não encontra correspondência com o que sinto. E não penso que isso aconteça apenas comigo, caro pequeno. Veja essa cidade…” e agora ele apertava os olhos janela afora “- … o crime a infesta a cada esquina, eles não acreditam em nada e, a despeito da lógica, as pessoas se recusam a ser salvas, solidarizam-se com os malditos e recusam o céu. A multidão quer o crime como o crime a quer.”

“- Isso significa que sua cabeça logo cairá…” – Granier falava rápido e baixo, desarmado.

“- Engana-se… somos jogadores de cartas, não pastores. Dependemos da mentira de um blefe, a virtude aqui apenas existe na falta moral. Veja este salão… o mesmo homem que aqui se faz homem, o faz apenas porque sabe mentir. Por isso, não desejes num lugar assim. Tente apenas se preservar, se posso lhe dar algum conselho, afinal, o que tirar de uma vida assim? Basta-nos morrer e pronto…”

“- É uma vida edificante a sua maneira.” – respondeu Granier, no que parou de varrer a tempo de ver Arnaud soltar uma profunda gargalhada àquele seu comentário.

“- Tens razão, meu caro pequeno…. a morte traz também uma vida a sua maneira.” – e continou a gargalhar no vidro embaçado da janela. Aquela alusão trouxe a Arnaud uma idéia:

“- Venha comigo, Will. Quero lhe mostar algo.” – e o velho pegou desajeitado a mão de Granier enquanto caminhavam salão adentro. Era um espaço enorme e mal cuidado com poucos móveis nos cantos e cortinas perfuradas. Dos seis lustres brancos, apenas um era aceso para a noite, a umidade trazia às paredes um aspecto esverdeado e quente, e, ao fim do salão, havia um corredor de luz fria, com duas grandes portas e uma escada de madeira cinzenta e vitoriana ao seu final.

“- Essas portas, o que guardam?”

“- Cozinha e este é meu escritório. Costumava conversar com meus clientes aqui, guardar algum material de jogo, fazer a contabilidade, guardar o dinheiro e administrar o salão.”

“- Existe outro andar acima?”

“- Não, apenas o sótão e uma pequena sala. Quero lhe mostar um livro, o livro dos meus devedores.” – Arnaud, tossindo no ar poeirento, cansado que estava pediu a Granier que subisse e procurasse o livro, passando lhe uma única chave pontuda de metal preto. Granier subiu rápido os largos degraus a tempo de ver Arnaud sentar no primeiro, de costas para ele. Ao entrar, curiosamente uma pequena janela no alto do teto iluminava exatamente o centro de uma mesa onde, numa caixa de madeira, havia um tabuleiro de xadrez, um jogo de cartas antigo amarrado num barbante, alguns catiçais quebrados, um lume e um livro. Granier o retirou com cuidado, tossiu com o monte de poeira e desceu. A singularidade do comportamento de Arnaud acabou por atrair fortemente a sua atenção, quando lhe passou o livro. Na capa amarelada pelo tempo havia a negra letra de Arnaud nos escritos: “- Estou cansado de reinar sobre escravos.” Granier sentou-se a seu lado, sobre as mãos.

“- Acalme-se, Will” – lhe disse Arnaud, deixando o fumo de lado “- … esse livro não é especialmente impressionante.”

Rodrigo Monzani

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