Simplicíssimo

A Fórmula Mágica

Certa vez, há quase duas décadas atrás, li um anúncio num jornal onde o sujeito dizia: “ganhe dinheiro apenas envelopando cartas”. Grana curta, como sempre, resolvi arriscar. Escrevi ao sujeito, que brevemente respondeu-me para que eu mandasse outra carta pra ele, com a frase: “quero aprender a técnica de ganhar dinheiro envelopando cartas”, juntamente com uma nota de um real. Legal, se só perderei um real, vamos à perda. Dias depois chega a resposta, rasgada junto com o envelope: “faça como eu. Escreva um anúncio e aguarde as pessoas se comunicarem com você. Só hoje recebi trezentos envelopes”. Ainda bem que, estrategicamente, o endereço do sujeito era uma caixa postal…

Vamos deixar uma coisa clara. Pouquíssimas pessoas conquistaram o direito de me dizer o que eu devo ou não fazer para ser feliz. E essas poucas pessoas nunca cobraram um centavo sequer pra me dizer o que pensavam ser melhor pra mim. Essas mesmas pessoas jamais me cobraram o que sugeriram, mudanças de atitudes, ou tentaram se mostrar superiores o suficiente para julgar minhas atitudes.

Acho estranho as pessoas buscarem tão freneticamente por fórmulas de sucesso. Geralmente estas fórmulas tratam da conquista financeira como base para a felicidade pessoal. Estranho esta associação, mas compreensível em dias como os de hoje e amanhã. Inclua-se a esta conquista financeira a necessidade básica de se ter um estereótipo atualmente aceito. Homens: tórax, coxas, abdômen, altura, olhos claros. Mulheres: bunda, peito, pinta (isso mesmo, muitas inserem pintas artificialmente), e outros atributos que teoricamente tornariam a pessoa invejada, querida, amada e cobiçada.

Talvez isso explique o porque de pessoas até relativamente bem financeiramente, bem relacionadas, bonitas até, inscreverem-se e interessarem-se tanto por atrações vazias, disputas estúpidas, sofrimentos forjados, enfim, tudo para tornarem-se famosos, erroneamente chamados “celebridades”. Celebridade pra mim é outra coisa, bem diferente.

Talvez isso explique o sucesso de livros ao melhor estilo “The Secret” e tantos outros que borbulham às prateleiras dos conglomerados editoriais, em detrimento a tantos, mas tantos talentos literários daqui e de muitos lás.

Talvez isso explique tudo, mas não me faça realmente entender, entrar no espírito da coisa, comentar com maior clareza essas coisas que me fazem sentir mais distante, mais sozinho, mais desanimado.

Ah, filhinho (a), quando você vier terei muito trabalho, ou, bem cedo, você descobrirá que seu papai é um perfeito idiota, um doido varrido. Quem sabe meu filho me salve, me mostre, me ensine. Quem sabe?

Fim (ou não).

Marcos Claudino

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