Simplicíssimo

Na Cabeça

Abriu os olhos. Teve a nítida impressão que estava em casa. Primeiramente o teto bege claro, a luz vinda da parede lateral. Não dava pra virar a cabeça. Estava preso a algum aparelho, algum fixador.

Evidente que se machucara, mas como? O carro? Mas tinha carro? Tinha moto? Tinha bicicleta ou patinétes? Teria sido andando? Caiu? Correu e se distraiu? Fora assaltado? Levara um tiro, fora espancado?

Não se lembrava de nada, seu nome, sua vida, sua aparência sequer, sua cor, estatura, cicatrizes. Só sabia que sua casa tinha um teto bege claro sobre sua cabeça… O teto, a luz lateral. Sabia que era homem, sexo masculino pra ser mais exato.

Tentou reavivar alguns detalhes menos importantes. Bom, vamos lá. São Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians. Não, Corinthians não, segunda divisão. Pronto, sabia que não era corinthiano (ufa!!). Morumbi, Parque Antáctica, Vila Belmiro. Não, Vila não, era no litoral. Pronto, sabia que era da capital paulista e não era corinthiano nem santista. Palmeiras, isso, Edmundo, Marcos. Isso!! Verdão!!!

Carro, moto, bike, ônibus, trem? Moto, só pode ser… Avenida Rebouças, um perigo. Fleches de faróis. Buzinas na memória. Rua da Consolação, terrível, Mackenzie, capacete, luvas de couro, freadas bruscas, capas de chuva, fechadas, madames aos celulares, xingos. Isso, moto, era motociclista.

Fácil deduzir como fora parar naquela situação, a cabeça presa, sem movimentos, tudo quieto, silêncio absoluto.

Posso guardar, Doutor?
Claro, feche a gaveta, sim?
Um desperdício essa cabeça ocupando a vaga de um corpo inteiro…
Brum! Gaveta fechada.
Ouviu alguma coisa doutor?
Não, acho que você está cansado…
Deve ser…

Agora ele sabia de tudo. O grito não saiu, mas ficou a certeza de que não devia ter bebido naquela noite…

Marcos Claudino, motociclista, quer que tudo seja ficção, sempre… Amém…

Marcos Claudino

Últimos posts

Siga-nos!

Não tenha vergonha, entre em contato! Nós amamos conhecer pessoas interessantes e fazer novos amigos!