Simplicíssimo

É a parte que te cabe…

É A PARTE QUE TE CABE…

São Paulo, 23 de março de 2007.

Prometi-me parar com as críticas sobre atualidades… Mas, pra que promessas se não as pudermos quebrar?

Diz-se que a maioria paga pelo erro de poucos. Concordo e discordo, depende do caso… Contarei uma historinha:

Era uma vez um serviço público. O transporte municipal da cidade de São Paulo. Depois de muitas décadas utilizando o pagamento em dinheiro ou passes (aqueles pedacinhos de papel doidos para serem perdidos), foi implantado o sistema de bilhetagem eletrônica. Na prática, um cartão magnético, que é carregado com certa quantia em dinheiro em casas lotéricas e postos de venda, e tem debitado automaticamente o valor da tarifa no momento da passagem pela catraca do coletivo. Permite ainda que, num período inferior a duas horas, possa-se ingressar em até três conduções diferentes, debitando-se apenas o valor de uma única tarifa. Dados tramitados on-line via satélite, primeiro mundo. Não raras visitas de representantes públicos de grandes metrópoles do exterior, para conhecer a novidade tecnológico-social.

Incluiu-se ao referido bilhete os benefícios legais adquiridos, como o Vale Transporte, Gratuidade do Idoso e Deficiente Físico, bilhete do estudante, entre outros. Tais modalidades agregam valores diferentes às passagens, ou a gratuidade. Por exemplo, o bilhete do estudante permite que o valor debitado seja a metade do valor normal da passagem, conforme determinação legal.

Agora, os problemas:

Não se trata de um sistema infalível, ou totalmente seguro. Mesmo engatinhando no assunto, levado em conta o tamanho desta cidade, o número de usuários e a indústria da falsificação impregnando-se em todos os cantos, não pode ser desprezado o enorme conforto que o sistema já oferece atualmente ao usuário.

Acontece que as pessoas descobrem as falhas, as brechas, e acabam comprometendo a rentabilidade de um sistema que, a bem da conversa, deveria gerar lucros, que seriam aplicados na melhoria do próprio sistema. Um amigo usava o bilhete estudante do filho, que estudava a duas quadras de casa, para locomover-se ao trabalho. Um belo dia teve o cartão recolhido por um fiscal. Chorou, esperneou e me procurou. Demos um susto nele, e devolvemos o cartão, recomendando o uso correto (sabendo da ilegalidade). Assim como esse amigo, milhares já se utilizam dos cartões de idosos dos pais e avós, bilhetes estudante dos filhos, ou de algum deficiente na família. Entregam às empregadas domésticas de casa, ao filho do vizinho, que nunca consegue arrumar emprego, ao amigo do quitandeiro, que é muito honesto mas não dá sorte na vida…

Buscando a regularização, a São Paulo Transporte realizou (muito tardiamente) um estudo comparativo entre a residência e a instituição de ensino dos estudantes. Descobriu milhares de irregularidades, óbvio, e suspendeu os créditos destes, solicitando o comparecimento aos postos de atendimento, para verificação e, quando possível, a regularização.

Não é preciso citar a quantidade de usuários que sequer compareceu, ciente do uso indevido. O que mais choca é que muitos e muitos, mesmo sabendo da condição irregular, vieram e tentaram justificar o erro, na esperança de continuar usando do benefício ao qual não tinham direito. Não conseguindo, não foram poucos os que saíram, literalmente, do salto, e armaram homéricos incêndios de escândalos dos mais variados níveis. Muitos inclusive, afirmavam que davam o cartão à empregada, ao caseiro, ao amante, mas não admitiam perder o direito ao uso.

Não tenho a menor intenção de proclamar o transporte público do município de São Paulo um exemplo de competência, de regularidade, de funcionalidade. Falta muito para esse patamar, se é que algum dia realmente o alcançaremos.

O que quero mesmo salientar é que as pessoas atualmente cometem irregularidades e sequer têm noção do que estão fazendo. A ilegalidade tornou-se parte do dia-a-dia do cidadão comum. E continuamos sem entender porque é que “Deus” nos castiga tanto, porque o governo é tão incompetente, porque faz tanto calor, ou porque o caos social em que vivemos não mostra qualquer réstia de luz no final do túnel Nove de Julho, Maria Maluf, Ayrton Senna, ou mesmo aqueles de três ou quatro mil metros de extensão da Nova Imigrantes… Ou haveriam camelôs vendendo se não houvesse quem comprasse deles? Ou seriam pagas propinas se não houvesse quem as recebesse?

Enfim, depois dessa verdadeira odisséia onde, com toda certeza, deixei vários pontos desatados, o que me resta mesmo perguntar é: afinal de contas, o Alemão vai ou não vai ganhar um milhão de reais no BBB7? E o Leão, cai ou não?

Marcos Claudino, 37 anos, profissional de Recursos Humanos, trabalha numa empresa pública cheia de irregularidades, cheia de gente boa, e de muitos que nada valem, incluindo-se neste último grupo. Mas conhece uns dois ou três que concordam com seu jeito de encarar as coisas, ou não, não importa mesmo…

Marcos Claudino

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