Simplicíssimo

Era Ela…

Novamente acabou. Relacionamentos definitivamente não eram seu forte. O início inusitado, a boa impressão causada pela moça, a paixão avassaladora, a rotina, o esfriamento natural, os fingimentos, as traições, o final, geralmente doloroso.

Desta vez seria diferente. Sua dedicação ao trabalho teria que ser compreendida e compartilhada. Não mais se entregaria sem conhecer melhor. Chega de fingimentos, seria claro e específico. Não mentiria, nunca. Não seria a primeira a demonstrar interesse, acomodaria melhor o tempo, conheceria melhor, antes, perguntaria. A aparência deveria ser a ideal. A pretendente teria que ser realmente perfeita para ele. Rosto, corpo, olhos, modo de se vestir, sorriso, seios, quadril, bunda, enfim, ou seria perfeita, ou morreria só. Chega de se enganar, se machucar, machucar outras pessoas. Chega de escândalos, chega de fingimentos, chega de agradar aos outros, esquecendo-se de si…

O dedo mexia o gelo dentro do copo de scoth. Os pensamentos divagavam. Animou-se com a idealização desta mulher perfeita. Finalmente montara um parâmetro, finalmente encontrara a preferida, a verdadeira dona de sua vida, se a encontrasse, se ela existisse…

E eis que… existe…

Entrando no bar, uma escultural morena vestindo um simples e elegante vestido preto colado ao corpo, corpo este esculpido detalhadamente pelos deuses da beleza e do desejo. Cabelos pretos lisos à altura dos ombros. Olhos verdes que seriam vistos até na mais absoluta escuridão. Rosto delicado, maquiagem leve, lábios úmidos… Era ela…

A respiração parou. Uma onda de calor subiu e desceu à aproximada velocidade de mil vezes por segundo. Taquicardia. O dedo mergulhava inteiro dentro do copo. Era ela. Não perderia tempo. Uma passada pelo toalete, recompor o mínimo de elegância e compostura. Tentar regularizar a respiração, um leve agradecimento aos céus, e lá vai Don Juan, decidido a ser feliz.

Coincidência ou não, a divindade senta-se em seu lugar, junto ao balcão. Um leve sorriso em sua direção, exatamente na expressão por ele idealizada há minutos atrás. Era ela… Aproxima-se delicado, respiração descompassada, toca em sua mão macia e leve, leva-a à boca, sente o delicado toque, o agradável aroma, e a definitiva pergunta:

– Vamo fudê?


A tapa foi ouvida há pelo menos quatro quarteirões do bar. O copo de gelo servia para estancar o inchaço do olho esquerdo. Uma linda morena sai apressada e furiosa, disposta a nunca mais acreditar em homens… Um garçom disfarça a vontade de gargalhar…


Fim…


Marcos Claudino

Marcos Claudino

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