Simplicíssimo

Historinha de Ninar

São Paulo, 19 de julho de 2005.

 

 

HISTORINHA DE NINAR…

 

 

Rua Boa Vista. Segundo maior centro financeiro da maior cidade da América Latina. Passava das sete da noite. O frio incomodava. Esperava um amigo na calçada, à frente de um grande jornal financeiro brasileiro. E ele demorava. Aos poucos foram parando pessoas sem casa, sem agasalhos, sujos, barbudos, mal cuidados. Alguns fumavam pontas de cigarro apanhadas do chão durante todo o dia. Alguns carregavam toda a bagagem nas costas, ou seja, um cobertor, alguns trapos, uma panela, enfim, todos os seus bens. Vão se juntando na calçada ao lado da entrada. O segurança pede que se afastem um pouco. Eles vão…

O amigo chegou. Fomos tomar umas e matar as saudades de bons meses sem nos falarmos. Ele continua o mesmo. Correndo muito no trabalho, fazendo acontecer, acontecendo. Relembramos bons momentos de cervejas tomadas no Posto Shell da Avenida Jaguaré, onde diretores, gerentes e peões se confraternizavam e bebiam juntos, falando muita besteira, mas muita coisa séria também. O tempo é curto. O celular do amigo José toca várias vezes. No terceiro chope temos que ir. Acompanho o amigo até a porta do prédio novamente. Nos despedimos.

A esta altura mais de trinta brasileiros esfarrapados confraternizam as mazelas que a vida os proporciona, que devem ser muitas. Começam a chegar alguns carros. Importados, pick-ups, marcas famosas, últimos modelos. Do primeiro carro desce uma jovem com um violão. Os esfarrapados levantam-se. Os outros carros vão parando, estacionando. A caminho de meu carro paro. Olho pra trás, e vejo as luzes do pátio do colégio. A torre do Banespa sempre imponente convida-me a dar mais uma espiada naquela parte histórica da cidade. Olhando pra cima, tudo lindo. Olhando pro chão, a corja de esfomeados ouve a nova música do Nando Reis. A sopa chega quentinha a cada mão estendida. Pratos descartáveis fervem sobre os membros maltratados daquela gente que deixa de ser infeliz por instantes. Alguns nem pegam a colher, sugam no próprio prato.

Continuo meu caminho e penso que o ser humano pode ter solução. Penso que não estamos perdidos totalmente. Penso que ainda podemos ter esperança. Antes de chegar ao carro, um jovem corre em direção à orla faminta, na esperança de não ter perdido o jantar. Reparo bem, e vejo que ele calça um All Star azul, bem rasgado.

Sorrio, pois sei que ele não terá fome esta noite, entro no carro acompanhando o fundo musical oferecido pela jovem…

… "estranho é gostar tanto do seu all star azul…"

 

Marcos Claudino

Marcos Claudino

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