Simplicíssimo

Só de Sacanagem…

São Paulo, janeiro de 2006.
Se houvesse uma disputa, eu desistiria. Pontos entregues. Como não há, apenas aplaudo. Colunista é aquele sujeito que observa, igual a todo mundo, o mundo à sua volta. Colunista é uma pessoa que, a partir desta observação, faz uma idéia geral, e escreve, registra, carimba a sua impressão sobre aqueles fatos.
A diferença entre o sucesso, o alcance de suas idéias às outras pessoas está justamente aí. Poder de síntese, captação da idéia central, e, sempre, a emissão de sua impressão, independente e despojada de qualquer outro valor que não seja o seu.
Desta maneira, apenas a título de homenagem, de propaganda gratuita, destaco o texto a seguir. Não conheço a autora, e também sei que até devo estar atrasado quanto à divulgação, pois acabei de comprar o CD Ana & Jorge, e encontrei esta relíquia atual, simples, inteligente e tudo de bom… Tradução de tantos pensamentos que, igualmente ao meu, e espero, seja parecido com o de mais pessoas, na esperança de não sermos eu e ela os únicos neste raciocínio.
Aproveito para, gratuitamente e ingenuamente, divulgar que o acima referido CD vale muito mais do que cada centavo gasto nele, tornando-se mais que um simples manifesto cultural.
Boa leitura a todos!!

SÓ DE SACANAGEM
(Elisa Lucinda)
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até hábeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.
Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

Marcos Claudino

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