Simplicíssimo

Edição 289 (14/08/08) – A tigela: uma lição sobre a impermanência

Esta semana resolvi dedicar o editorial do Simplicíssimo a uma reflexão. Segue uma anedota famosa concernente ao mestre rinzai Ikkyu, que viveu, aproximadamente, há 03 ou 04 séculos.

Ikkyu era, então, um monge muito jovem que vivia num templo zen, onde vivia também seu irmão. Um belo dia, esse último deixou cair no chão uma tigela da cerimônia do chá, que se quebrou; a tigela era ainda ais preciosa porque fora presente do imperador. O chefe do templo admoestou-o severamente, fazendo chorar o mongezinho.
Ikkyu, todavia, recomendou-lhe que não se preocupasse:
– Tenho sabedoria. Posso encontrar uma solução.
Juntou os pedaços da cerâmica, colocou-os na manga do seu kolomo e foi descansar no jardim do templo, enquanto esperava, pachorrento, o regresso do mestre. Tanto que o avistou, foi ao seu encontro e propôs-lhe um mondo:
– Mestre, os homens nascidos neste mundo morrem ou não morrem?
– Morrem, decerto – respondeu o mestre. – O próprio Buda morreu.
– Compreendo – volveu Ikkyu – , mas no que respeita às outras existências, os minerais ou objetos também estão destinados a morrer?
– É claro! – reponde o mestre – Todas as coisas que têm forma devem morrer necessariamente, quando surge o momento.
– Compreendo – disse Ikkyu. – Em suma, como tudo é perecível, não deveríamos precisar chorar nem lastimar o que já não existe, nem sequer zangar-nos com o destino.
– Está visto que não! Aonde queres chegar? – inquiriu o mestre.
Ikkyu tirou da manga do kolomo os destroços da tigela, que apresentou ao mestre. Este ficou boquiaberto.
(conto retirado de Contos Zen)

E se nos déssemos o tempo para pensar, um pouquinho só, veríamos que nesta grande verdade – a impermanência de todas as coisas – paira o segredo para viver bem o presente. Viver bem o presente não significa tão somente aproveitar tudo no aqui e agora colocando em risco nossa saúde e a própria vida, mas certamente também não significa jogar a felicidade para o futuro. Significa dosar com sabedoria as escolhas do sia-a-dia, levando sempre em conta esta noção – a da impermanência (do trabalho, dos relacionamentos, da vida).

E aí? É fácil ter, todos os dias da vida, esta noção conosco? Existe alguém que ensina qual é o nosso ponto de equilíbrio? Existe alguém melhor do que nós mesmos para nos dizer quando é hora de seguir, quando é hora de reduzir, de acelerar, de parar? E você, o que pensa sobre isso?

Rafael Reinehr

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