Simplicíssimo

Edição 295 (24/09/08) – Possuir cultura ou por ela ser possuído

Desde petititinho, sempre amei o conhecimento. Uma das coisas que mais me dava prazer (e ainda dá) era estudar, aprender, saber, conhecer. Nunca fui problema para meus pais no que dizia respeito aos estudos. Nunca me mandaram fazer o tema de casa. Chegava em casa da escola ao meio-dia, almoçava e lá ia eu fazer as tarefas de casa sentado no chão da sala sobre a mesa de centro, com o Vale a Pena Ver de Novo como pano de fundo. Lá pelas duas e meia já tinha tudo terminado e estava pronto para ir pra rua correr, jogar bola, taco ou vôlei.

Com o tempo, os amigos e as leituras (sem esquecer poucos mas muito bons filmes) começam a trazer uma perspectiva mais ampla do mundo e chegamos a um ponto em que, muito mais do que adquirir cultura no seu senso estrito, somos “adquiridos” ou tomados por ela.

Chega um ponto em que, de tão afeitos às coisas das artes e tão desejosos de nos imiscuirmos com a literatura, a música, o cinema, a fotografia, a filosofia e as humanidades em geral, nos damos conta que não somos mais que costumávamos ser, mas nos tornamos parte de algo maior, do qual já não conseguimos mais nos dissociar.

É uma posição quase de submissão a que nos entregamos quando percebemos que não estamos adicionando cultura e conhecimento ao nosso arcabouço intelectual mas estamos, isso sim, nos escravizando cada vez mais no seio desta inimaginavelmente complexa estrutura que passa a exigir de nós cada vez mais dedicação exclusiva ao seu reino.

Chega-se ao ponto – acredite – de abrir mão de conforto e segurança financeiros para trabalhar fervorosamente em favor da Rainha Cultura. Ao mesmo tempo em que escraviza, ela também sabe ser generosa: com seus afagos noturnos, nos embala o sono e transforma nossos sonhos em fantasias extasiantes, inebriando nosso corpo e espírito com uma deliciosa e contínua sensação de bem-estar.

E assim vamos seguindo, entre escravidão e carícias, mergulhando cada vez mais fundo nos mistérios que ela ainda nos guarda, esperando algum dia não perceber mais diferença entre o indivíduo que somos e a totalidade que ela representa.


É com prazer que anunciamos nessa edição mais duas estréias: Estevão Daminelli e Fabiana Falcão, além de mais um simpliautor que se torna cimplicolunista: Edson Rufo, com a coluna "Detalhes que fazem diferença". Esperamos que gostem!

 

Rafael Reinehr

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