Pela neo-renascença das artes brasileiras

Hoje este editorial dá licença (poética, estética, protética e didática) a um “início de conversa” entre pessoas que querem fazer algo pela neo-renacença das artes brasileiras. De autoria de José Paulo Lanyi, o texto vem bela e claramente expressar uma idéia na qual o Simplicíssimo já vem imbuído desde sua criação e, é claro, não poderíamos deixar de divulgar.

Hoje este editorial dá licença (poética, estética, protética e didática) a um “início de conversa” entre pessoas que querem fazer algo pela neo-renacença das artes brasileiras. De autoria de José Paulo Lanyi, o texto vem bela e claramente expressar uma idéia na qual o Simplicíssimo já vem imbuído desde sua criação e, é claro, não poderíamos deixar de divulgar.

A partir de hoje, este será um espaço de conspiração. Será um coreto na praça pública do inconformismo. Será o telefone, será a carta de além-terra, será a fila do cinema e o elevador, será o táxi, será a fila do INSS dos que, um dia, poderão pagar ingresso para morrer em paz. Há tempos se ouvem as mil queixas. Há tempos os corpos se agitam, há tempos nos escondemos por baixo dos calos vocais, há tempos fazemos na alma e, lá fora, sussurramos, como covardes e omissos que somos, no extrato de uma certa brasilidade, aquela que ficou para trás e nos empurra para o nada – antes fosse o precipício, antes fosse o tudo ou nada, tanto melhor do que o recalque disfarçado em prudência.

Sente-se o cheiro da pólvora, aqui em São Paulo, no Rio, em Pernambuco, em Santa Catarina, em Minas, no Rio Grande do Sul… Queremos mais. Jornalistas, artistas e intelectuais, todos os humanistas… Estamos amotinados. Reunimo-nos a cada semana. Não aceitamos mais a polaridade do “acaso” que nos foi imposto. Não aguentamos mais uma vanguarda que, como um bode bobo, insiste em apodrecer na nossa sala. Pois a vanguarda predominante, no papel jornal e nas telas eletrônicas, é uma vanguarda que já morreu. A verdadeira vanguarda ninguém sabe onde está. Talvez, amarrada lá fora, a comer capim, enfeada pelo espelho da impotência.

O teatro…o teatro é um absurdo… É o botox da cara de conteúdo… Quem não gosta dessa vanguarda é burro. Suprema injustiça: alguns burros não escrevem teatro. Companhias agradáveis, portanto. Conclamo todos vocês a atrelar-se à nossa burrice. O campo não cobra entrada. Lá o povo tem vez. Passa pela porteira, cumprimenta a coruja, senta, deita e rola nos micuins que incomodam mas fazem matar de rir.

E não adianta mostrar a bunda no teatro. Agora, se mostrar a bunda, a gente chuta. Defecar no palco, melecar-se na orgia da sacrossantidade alheia? Camisa-de-força nesses… Essa vanguarda está morta. Para alguns, já estava… Que assim seja… Vamos garantir, então… Vimos aqui com a pá e o caixão. Terra nós também temos.

O pós-modernete joga peteca com o popularesco. Os jornais e as revistas vendem “programação de fim-de-semana”. Todos vendem e se vendem na ciranda do cifrão. A música da rádio está sob análise, na mesa do pessoal do Nordeste: este, sim, faz um jabá delicioso. O resto é xepa de prisão. Música atonal para passar de ano na USP, música atonal que ganha concurso. E o Mozart, aquele que coraria, quase um ex-indigente, esse é explorado na boca do caixa. Velinhas de 250 anos para ele! Na prática do ano passado e do ano que vem, mais cara de conteúdo nas audições. É a eletroacústica do trrrrim… trrrrim… trrrrim. Pobre Mozart, aquele que tentaram enterrar. Não com as nossas pás. Não, de jeito nenhum.

Sugiro um caminho: um concurso pós-funk alternativo. Não entendeu? Nem eu… O cinema do éramos seis e agora somos cinco. Quanto menos melhor. Para dois ou três. Um e outro ator, um e outro realizador. Queremos telões nos drive-ins. Drive-in a um real. Um festival diário de democracia. O cinema é de todos. O drive-in é erótico, queremos a reprodução, queremos a biodiversidade na tela e no banco do carro. A quem enganará o sucesso de um? Até quando torcer, no campeonato de um só?

E as intervenções urbanas? Polícia, favela, racha na perifa? Não, respeitável público. É a peladona pós-moderna- sim, ela também – a mostrar-nos a bunda embaixo do viaduto. Se ao menos fosse roliça…

Tem gente aí que faz a antiarte ambiental. Come banana a cada dois anos, só para aproveitar a casca. No chão não se anda mais… Nós caímos e eles riem. Somos hospedeiros desses vermes que se instalam no ridículo deste grande faz-de-conta. Eles se fingem de artistas; nós, de público. Os livros se publicam, mas não sabemos disso. O mago das finanças envergonha a Casa de Machado, enquanto muitos outros vicejam, mas só no Google, e olhe lá… Cinco referências a um pobre diabo, doze referências ao ilustre “quem”… Quem se importa? Nós nos importamos e queremos a sua companhia.

A juventude pós-ditadura não sabe mais o que fazer. Não tem contra quem, nem contra o quê protestar! Na terra dos Jeffersons, na terra da propaganda da TV, tudo se consome muito rápido. Não há inimigos do povo. Não se sabe o que fazer na sexta à noite. Nada diferente do que se tem feito todas as sextas, todas os dias.

Se depender de nós, nada se perderá. Esta é apenas uma entressafra medíocre. Que lhe salguem a terra, então. Não é possível esperar mais.

Clamamos pelo renascimento das artes no Brasil! Choremos a falsa vanguarda com lágrimas de crocodilo! Louvemos a vanguarda esquecida e nada mais será como antes! Contra a ditadura da forma, o esplendor do conteúdo! Contra o Golias da indústria, uma pedra bem no meio do olho! Esta é uma trincheira de mais de 560 mil pessoas! Não será desperdiçada. Que o jornalismo cumpra a sua obrigação histórica! Aqui na Internet somos todos pioneiros. Que o sejamos, pois, que abracemos os esquecidos, que tragamos de volta os que pereceram pela infâmia da indústria! Que venham aqueles que ainda não existem! Aqui eles existirão!

Não à cara de conteúdo!

Melhor: cara de conteúdo, sim! E saberemos dizer, na fila do teatro: – Esse aí é o cara de conteúdo…

Saibamos respeitá-lo, uma vez identificado. Mas jamais nos venham dizer que é dele que emana o monopólio da sapiência!

Respeito aos clássicos, respeito ao “normaizinhos”… Meu cachorro é normal. E eu gosto dele. A crítica e o público haverão de se despir da empáfia. De agora em diante, por tempo indeterminado, vamos discutir, ferrenhamente, todos os nossos anseios artísticos. Trarei aqui os inconformistas. Terão aqui a palavra que lhe é negada pela indústria cult e pela indústria do esculacho geral! São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Pernambuco, Rio Grande, Minas Gerais… É pouco. Queremos mais. O Comunique-se é o terreno antitotem. Sim à autenticidade, não à impostura! E se o autêntico é ruim, que seja enterrado na vala comum do passado que está por vir!

(por José Paulo Lanyi)