Simplicíssimo

As Verdades Evidentes do Simbolismo Reacionário.

As Verdades Evidentes do Simbolismo Reacionário.
 
 
“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”. Orwell, George
 
 
“Ser contra um movimento é ainda fazer parte dele”. Picasso, Pablo

 
 

As atuais táticas que têm por base atacar – ainda que algumas (a maioria) sejam pacíficas – símbolos poderosos do capitalismo encontram-se numa paisagem semiótica totalmente transformada, quando relacionadas às últimas cinco décadas. Os atentados de nossa história recente foram também atos de uma guerra simbólica, e imediatamente foram entendidos como tais. Para alguém cuja vida está ligada ao movimento reacionário, ou anticapitalista é difícil evitar discussões sobre simbolismos, especialmente sobre símbolos antiempresariais e seus significados culturalmente modificados, estilos que compõem as metáforas dominantes na anarquia.

 

Muitos adversários políticos do ativismo contra empresas transnacionais utilizam o simbolismo para argumentar que os reacionários nunca adentraram numa guerra real, enquanto, mundo afora, surgem os obituários do novo mundo: “A antiglobalização é obsoleta” ou “Reacionários estão despedaçados”, como surgiu numa matéria de capa do Boston Globe, mas a verdade é que o ativismo já foi declarado morto muito antes. E, mais ainda, é declarado morto com uma constância ritual, antes e depois de cada manifestação de massa: as estratégias são ridicularizadas, as coalizões, divididas e os argumentos são forçosamente jogados à margem do discurso neoliberal.

 

Apesar e por causa dessa paisagem, vale ressaltar a importância dos símbolos, ou o porquê travar lutas simbólicas. Trata-se de um desafio estratégico: como se organizar contra uma ideologia tão ampla que não tem limites, que está imposta em toda parte e que parece não estar em lugar algum? Agarrar-se a quê, quando aquilo que é tão poderoso também é virtual: transações monetárias, cotações da Bolsa, propriedade intelectual e sigilosos acordos comerciais exploratórios? Numa possível análise pré-atentados de 2001, a resposta era que se tomasse o que quer que se conseguisse pôr as mãos: a imagem da marca de alguma transnacional famosa, uma Bolsa de Valores, uma reunião de líderes mundiais, um acordo comercial específico ou bancos e escritórios dessas grandes corporações que são os motores dessa agenda. Alguma coisa que, ainda que de forma passageira, fizesse o intangível se tornar atual e a vastidão virtual do sistema capitalista ter alguma relação real com a escala humana. Em suma, encontram-se símbolos e esperava-se que se tornassem metáforas de uma mudança possível. Por exemplo, quando os EUA declaram guerra comercial a França por se atrever a proibir a importação de carne bovina com hormônios, a Confederação de Camponeses Franceses não conseguiu qualquer apoio, sequer atenção  por parte do resto do mundo gritando contra os impostos de importação. Conseguiram essa atenção ao desmantelar estrategicamente um estabelecimento do McDonald´s.

 

As empresas Nike, Exxon Mobil, Monsanto, Shell, Pfizer, Kellogg´s, Starbucks, The Gap, Rio Tinto, British Petroleum, General Eletric, Wal-Mart, CitiGroup e Taco Bell viram, todas elas, como suas reluzentes marcas são usadas pelo mundo afora pra exibir tudo à luz pública, dos hormônios do crescimento bovino utilizados no leite aos direitos humanos no delta do rio Níger; do desrespeito para com os direitos trabalhistas ao financiamento de guerras com o produto de oleodutos; do aquecimento global às fábricas de exploração selvagem do trabalho. Dessa forma, muitos ativistas aprenderam, durante a década passada, que esse nó cego nas relações internacionais pode ser desatado vinculando campanhas a marcas famosas – uma arma eficaz, embora esbarre num certo provincianismo. As campanhas contra as grandes corporações abriram as portas dos fundos do mundo oculto do comércio e das finanças internacionais, da OMC, do Banco Mundial e, para alguns sóbrios, levaram, enfim, ao questionamento do capitalismo.

 

Mas essas táticas demonstraram também ser um alvo fácil. Políticos e comentaristas internacionais (pessoas que via de regra, embora encharcados de soberba, não têm idéia do alcance de suas opiniões) passaram a incluir ataques terroristas como parte da violência antiamericana e anticorporações: o editor do New Republic, Peter Beinart, baseado numa obscura mensagem que captou em um chat anticorporações na Internet – que perguntava se os ataques de 11 de setembro teriam sido cometidos por “um dos nossos” – concluiu que “o movimento antiglobalização motiva-se, em parte, pelo ódio aos Estados Unidos.” Num mundo sadio e de pessoas inteligentes, em vez de alimentar esse tipo de conclusão e reação, os atentados terroristas deveriam provocar interrogações sobre como as agências de espionagem norte-americana gastaram tanto tempo e dinheiro grampeando ambientalistas e agências de informação independentes, quando teoricamente deveriam se preocupar com as redes que planejam assassinatos em massa. A explicação passa pelo financiamento do próprio terrorismo pelos EUA.

 
Infelizmente, parece evidente que a repressão contra o ativismo se aprofundará com o aumento da vigilância, infiltração no movimento e violência policial. Também é muito provável que o anonimato que caracterizou o movimento anticapitalista – as máscaras (alguém se lembra do filme “V for Vendetta”, em português, “V de Vingança”, dos mesmos criadores de “The Matrix”?), os gorros e os pseudônimos – se torne mais suspeito, numa cultura que tem gosto pela procura de agitadores clandestinos. Os atentados, no entanto, custaram mais do que liberdades civis. Talvez possam custar também poucas vitórias políticas, não só anarquistas, mas de todo movimento ativista que se arrasta no lodo neoliberal. Efeitos colaterais: os fundos que se destinavam a amenizar a crise de Aids na África estão sumindo, e os compromissos para ampliar a suspensão da dívida externa seguramente se encaminham para o túmulo. A defesa dos direitos dos imigrantes e dos refugiados – que vinha se tornado um dos principais objetivos da luta dos ativistas de ação direta na Austrália, Europa e, pouco a pouco, nos EUA – também está ameaçada pela onda crescente de racismo e xenofobia. E, por último, mas não menos importante, o livre comércio, que há bastante tempo vinha sofrendo uma crise de relações públicas, foi rapidamente reetiquetado como um dever patriótico. Agora, o neoliberalismo se defende ao “promover os valores que estão no coração desta luta prolongada”
 

O economista americano Michael Lewis opera uma fusão semelhante, entre a luta pela liberdade e o livre comércio, quando explicou, num ensaio para o New York Times, que os civis que morrem em atentados não morrem por serem somente alvos, mas também “por serem símbolos da liberdade capitalista, que trabalham com empenho”. Isso os torna, quase que por negação, a antítese espiritual do fundamentalismo religioso, que se baseia em negar a liberdade individual em nome de algum poder supostamente superior. E pronto, eis o capitalismo apresentado como meio de libertação.

 

Nossas liberdades civis, nossas estratégias habituais, nossas modestas vitórias foram todas lançadas em dúvida, o que, numa visão otimista, abre novas possibilidades. O desafio para a anarquia de hoje e para os outros movimentos que lutam pela justiça social é o de vincular a iniqüidade econômica ao tema da segurança social, que se refere a todos; e insistir que a justiça e a eqüidade são as estratégias mais sustentáveis contra a violência do mercado.

 

Nesse tipo de guerra simbólica, torna-se claro que os terroristas estão encontrando suas armas nas depauperadas infraestruturas públicas dos países pobres, onde o fundamentalismo espalha-se rapidamente. Onde a dívida e a guerra corroeram infraestruturas, tios ricos (toda família tem um, por que com os islâmicos seria diferente?) tais como Bin Laden são capazes de entrar em cena e providenciar serviços básicos que deveriam ser trabalho do governo: estradas, escolas, clínicas de saúde e mesmo saneamento. No Sudão, foi Bin Laden quem pagou pela estrada que possibilitou a construção do gasoduto Talisman, bombeando recursos do governo para onde bem entendesse. O Oriente, que possui países que chegam a gastar 90% de seus orçamentos com dívidas e armamentos, tem uma gigantesca lacuna de bem-estar social que é preenchida por extremistas como Bin Laden, que oferecem não apenas salas de aula de graça, mas também comida e abrigo para famílias pobres. É por isso que extremismo dá certo no Oriente, e não somente devido a questões religiosas. É por isso que Bin Laden não foi e nem será achado, uma vez que qualquer mãe de família islâmica pobre está disposta a escondê-lo debaixo de sua burca sem ao menos lhe reclamar da barba arranhando suas costas.

 
 

Ao compreender o alastramento do fundamentalismo, é inevitável tocar em questões de infra-estrutura e fundos públicos. Essa guerra está sendo travada em salas de correio, metrôs, aeroportos, escolas e hospitais, todas linhas de frente de batalhas da privatização.

E a resposta dos políticos é sempre a mesma: menos impostos nos negócios e mais serviços privatizados. No mesmo dia em que o International Herald Tribune publicou a manchete “Correios: nova linha de frente do terrorismo”, foi anunciado que os governos europeus haviam aceitado abrir o mercado de entrega de correspondência para a competição privada. E, é claro, um dos principais itens na agenda da OMC é o acordo geral para o comércio de serviços.

 

O debate acerca de que tipo de globalização nós queremos não é exatamente de ontem, e nunca foi tão urgente. Muitos grupos de protesto estão posicionando seus argumentos em termos de segurança para todos – um antídoto bem-vindo para a estreita mentalidade sobre segurança com fronteiras fortificadas por patetas e aviões B-52s que até agora só têm proporcionado um serviço espetacularmente mixo para proteger alguém.

 

Mas não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que a real e persistente ameaça de um massacre de mais inocentes fosse desaparecer com uma mera reforma política. Enquanto G. W. Bush convocava o mundo para se unir aos EUA na guerra, marginalizando as Nações Unidas e os tribunais internacionais, nós precisávamos e ainda precisamos converter-nos em defensores apaixonados do verdadeiro multilateralismo, recusando, de uma vez por todas, quaisquer rótulos depreciativos que possam ser impostos (desalmados, rebeldes sem causa, baderneiros…) à anarquia.

 

A “coalizão” imaginada por Bush não representa uma autêntica resposta global ao terrorismo, mas a internacionalização dos objetivos da política externa de um país, da mesa de mármore de negociações da OMC até Kyoto: “Você tem a liberdade de participar segundo as nossas regras ou de ser completamente isolado” Nós podemos fazer constatações reacionárias e, principalmente agir de forma organizada e pensada não como “antiamericanos”, mas como verdadeiros internacionalistas humanistas. Afinal, a profusão de ajuda e apoio mútuo é tão distante dos objetivos humanitários da anarquia? Aquelas palavras de ordem: “as pessoas antes do lucro”, “o mundo não está à venda” tornaram-se verdades evidentes e foram visceralmente sentidas, e ainda o são. Existe um nojo crescente pela busca de lucro. Surgem dúvidas se é aconselhável deixar em mãos de empresas privadas serviços tão cruciais como o da segurança em aeroportos, ou por quê o socorro financeiro se destina às empresas aéreas, e não aos trabalhadores que estão perdendo seus empregos. O comum – o bem público – está passando por uma fase de redescobrimento em todos os lugares.

 

Aqueles que pretendem mudar as mentalidades (e não apenas ganhar discussões) deveriam se aproveitar desse momento para vincular estas reações, muito humanas, aos inúmeros campos em que as necessidades humanas devem preceder aos lucros das grandes corporações, do tratamento da Aids aos que não têm onde morar. Isso requer uma mudança dramática na estratégia do movimento reacionário, baseada muito mais na substância que nos símbolos.

 

Por fim, há alguns anos, o ativismo altamente simbólico já era desafiado por alguns setores do movimento e numa guerra de símbolos são muitas as frustrações: quebra-se a vidraça de um McDonald´s, as reuniões da OMC passam a ser feitas em lugares cada vez mais remotos, por quê? Continuam sendo apenas símbolos, fachadas, representações de insaborosas mentiras movidas por cordéis invisíveis, porém inquebravéis. Antes de 11 de setembro de 2001 já se percebia uma nova atmosfera de impaciência, uma certa insistência em priorizar alternativas socioeconômicas que tanto atendam às raízes das injustiças quanto a seus sintomas, da reforma agrária à indenização pela escravidão.

 

Agora parece ser um bom momento para desafiar as forças do niilismo e da nostalgia em nossas fileiras de cadáveres, enquanto abrimos mais espaço às vozes dissidentes e mostramos que é possível enfrentar o imperialismo defendendo a pluralidade, o progresso e uma democracia profunda. A tarefa nunca foi tão importante, consiste em mostrar que existe mais de um mundo, expor à luz todos os mundos até então invisíveis que existem entre a exploração e sua solução através de ação conjunta.

 

Talvez as guerras de imagens estejam chegando ao fim. Talvez não; e durante anos nesse movimento nos alimentamos dos símbolos de nossos adversários – suas marcas, arranha-céus, reuniões de cúpula para fotos. Nós os usamos como denúncia em manifestações, como objetivos prioritários, como ferramentas para se consertar a educação popular, mas nunca foram alvos reais; eram apenas as alavancas, as manilhas, os símbolos. Estes símbolos são apenas as portas de entrada, agora é hora de passar por estas portas, agir de maneira pensada e de olhos e mentes bem abertos.

 

Rodrigo Monzani

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