Simplicíssimo

Para ler a dois

O homem de bigode entra na sala. A moça de roupão rosa e toalha vermelha continua lendo, sem sentir sua presença.
Já sentado tira o jornal de baixo do braço, acende um cigarro.
-Outro?
-sim.
-Já?
-Ainda.
-Não sei como suporta.
-Da mesma forma que você suporta esse cigarro.
-Da mesma forma que você me suporta fumando esse cigarro?
-Talvez.
-Veríssimo de novo?
-De novo não, sempre.
-O jornal ta dizendo…
-Não precisa continuar.
-Por que, já leu?
-Uma vez no começo do ano.
-Então.
-Então que todos os jornais dizem a mesma coisa.
Silencio.
-E esses livros não?
-Talvez. Só que de forma mais suportável.
-Deveria largar isso.
-Deveria me largar.
-Acha mesmo?
-Acho. Mas não espero.
-Deveria.
-Está pensando em fazê-lo?
-Não, mas deveria ter pensado alguns anos antes.
Silencio.
-Nossas conversas eram menos silenciosas.
Silencio.
-Bem menos.
-Deve ser porque você falava mais.
-Pensei que fosse porque você lia menos.
Olhares.
-Quer que eu faça torradas.
-Não, mas se quiser fazer café.
-Café demais faz mal.
-Cigarros também.
-Estou tentando largar.
-Novamente?
-Com açúcar?
-Há anos que só tomo sem.
-Nunca se sabe, as pessoas mudam em tão pouco.
Silencio.
-Pronto.
-Hum, você não mudou nesse ponto, continua fazendo ótimos cafés.
-Você também continua apreciando coisas bem feitas.
-E vc continua convencido.
-Desculpe, só falei para descontrair.
-E eu só quis assentir.
Silencio.
-Não deveria ter dito isso.
-Continua voltando atrás nas palavras.
-E vc continua duro e inflexível.
Silencio.
-O leiteiro está lá fora.
-Não lembro de tê-lo chamado.
-Continua com a memória curta.
-Nunca foi meu forte.
-Pensei que quisesse leite.
-Continua pensando demais.
-E você deixando as pessoas esperando.
-Já disse que não preciso de leite hoje.
-Então já volto.
-Não necessita.
-Que quer dizer com isso?
-Que o leiteiro está esperando.
Silencio.
-Comprei dois litros.
-Eu disse que não precisava.
-E ele precisava do dinheiro. Podemos congelá-lo.
-Podemos? Há tempos não ouvia palavras na 3° pessoa do plural.
-Há tempos que você não as pronuncia.
-Você também.
-Quer comer alguma coisa?
-Depende.
-Continuo sem saber como se faz sanduíches.
-Pode abrir as latas de conserva?
-Claro. Tinha esquecido dessa utilidade.
-Chama-se gentileza.
-Pensei que não fosse gentil.
-eu não disse que é.
-Tem mesmo muito tempo que não diz.
-E já cheguei a dizer?
-Continua com a memória curta.
-Você já o disse hoje.
-Estou dizendo novamente.
-E vc fala de forma demasiada.
Silencio.
-Outro cigarro?
-Você me troca por Veríssimo.
-O que disse?
-Nada.
-Você me troca pelo cigarro.
-Poderia ficar com os dois se quisesse.
-Tinha que ter nascido homem mesmo.
-Vocês sempre limitando as coisas.
-Vocês sempre querendo demais.
-Por que não?
-Porque não podemos ter tudo.
-Eu não disse que podemos.
-Mas pensou.
-Você continua adivinhado meus pensamentos.
-Continuo acertando?
-Às vezes.
Silencio.
-O tempo estraga as coisas boas.
-O tempo lapida as coisas, só isso.
-Estranho, você continua com a mesma cabeça.
-Você também.
-E não vamos ser lapidados?
-Já fomos.
-Não percebi.
-É, eu sei.
Silencio.
-Não se preocupe, continuaremos a ser.
-Tem razão.
-O que disse?
-Que você tem razão.
-Você continua a mesma.
-Já sei, volto atrás no que digo.
-É. Ás vezes isso é bom.
-Tem certeza que acha isso?
-Eu continuo sendo sincero.
-Não acho que sejamos os mesmos desde aquele tempo.
-De novo essa palavra.
-Pensei que gostasse do tempo.
-E gosto.
-Mudamos tanto.
-Isso acontece todos os dias.
-Por que estamos falando sobre essas coisas?
-Não sei.
-Acho que dormimos demais.
-Hoje é sábado?
-Domingo Domingos.
-Que horas chegamos em casa ontem?
-Não lembro.
-E os sanduíches?
-Tem certeza que não prefere sair pra almoçar?
-Tenho. Acho que estamos precisando fazer sanduíches.
-Você e essa mania de inventar necessidades.
-Já sei o porquê de tudo.
-E o que foi?
-A gente se conhece demais.
-E o que sugere?
-Vamos fazer sanduíches.
-Não estou falando disso.
-Não falaremos mais.
-Atum ou queijo?
-Os dois.
-Você e seus gostos.
-O que acabamos de combinar?
-Desculpe. Tinha esquecido.
-Você e essa memória.
-De novo?
-Desculpe.
-Ai.
-Que foi?
-Sua barba me espetava menos.
-Ei…
-Já sei, o combinado.
-É.
risos

(TEXTO MENÇÃO HONROSA NO PREMIO LUIZ ANTONIO PIMENTEL2007)

Joselania Silva

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