Infidelidade

O que leva alguém a trair? O que faz com que alguém decida se lançar numa aventura? Qual o ponto decisivo? Como decidir o que pesa mais? Muitas são as perguntas e muitas são as respostas possíveis a estas perguntas, depende apenas de quem se está tentando convencer: se ao parceiro que foi magoado, se a terceiros, se a si mesmo. Atire a primeira pedra quem nunca traiu, e se apresente aquele que tiver coragem de defender. Eu não tenho.

 

O que leva alguém a trair? O que faz com que alguém decida se lançar numa aventura? Qual o ponto decisivo? Como decidir o que pesa mais? Muitas são as perguntas e muitas são as respostas possíveis a estas perguntas, depende apenas de quem se está tentando convencer: se ao parceiro que foi magoado, se a terceiros, se a si mesmo. Atire a primeira pedra quem nunca traiu, e se apresente aquele que tiver coragem de defender. Eu não tenho.

Infidelidade é uma pancada em forma de filme, que pega o expectador desprevenido pelo colarinho sem aviso nem por que. Logo de cara, vemos uma esposa linda, vivendo num subúrbio verde, calmo e bonito, com um filho encantador e um marido galã. Parece realmente ótimo, não dá pra querer mais nada, não é? O charme de Diane Lane é palpável, o menininho que faz o filho é lindo e cá entre nós, acordar e ver o Richard Gere deitado ao lado não é um mau negócio. Juntos, os três são adoráveis. E o expectador pensa: “O que pode sair errado?” O filme não se faz de rogado e mostra rapidinho.

Num belo dia que parecia normal, uma ventania com cara de furacão traz consigo um francês absolutamente maravilhoso (que homem é aquele?) e o joga no meio da história. A bela Constance – ironia maior que este nome não há – bem que tenta manter o papel de mãe e esposa exemplar, mas a perturbação provocada pelo francês é grande demais. Perto dele, ela fica tímida, indefesa, mantém os olhos baixos, se atrapalha, fica ruborizada. Tenta fugir, mas não o suficiente. Ela sempre diz “eu não posso”, nunca “eu não quero”, como se tirasse de si mesma a responsabilidade por escolher agir diferente, como se apenas se submetesse a uma vontade maior que a sua.

A cena em que ela sucumbe à atração e passa por cima dos próprios valores e da própria consciência é marcante. Ela arqueja de desejo e chora, ao mesmo tempo, culpada por estar fazendo aquilo e louca para fazer, nada a impediria. A cada encontro com o amante, a culpa vai se esvaindo e ela se torna mais e mais liberta e sensual. A paixão a deixa cega, é como uma ferida incandescente que só abranda quando molhada na fonte que a provocou. Ela inventa desculpas, fica insatisfeita, procura pelo amante compulsivamente. Todos os lugares são bons o suficiente para eles: o apartamento do francês, banheiros de lanchonetes, cinemas, escadarias públicas.

Mas sempre que volta para casa com os olhos brilhantes e as faces coradas, mal contendo o sorriso, encontra o adorável, delicado, carinhoso, confiável e companheiro marido-galã. E a consciência dói terrivelmente. Quer deixar de mentir, voltar a se dedicar apenas à família, mas está viciada, cativa, entregue. A sensação de liberdade ao transgredir, o prazer irrestrito e amoral, a excitação do mistério, são fortes demais. E a traição torna-se gritante, evidente, dolorosa.

A cena da banheira é emblemática. Aliás, na época em que saiu o filme, encontrei um amigo que me disse: “Puxa, convenhamos! Velas, música crioula, uísque, água quente e nada? O marido queria mais qual sinal de que tinha coisa errada?”. E realmente é assim. Deitada na penumbra, com velas acesas, ela ouve música arrastada enquanto toma uísque. O marido se aproxima e quer participar, mas assim que ele entra na banheira, ela alega frio e o chama para a cama. Não pude distinguir se reage assim porque não conseguiria fazer amor com o marido na claridade, olhando nos olhos dele, ou se não consegue mesmo é ser tocada por ele, ainda que no escuro.

O marido finalmente reconhece a mudança e descobre o caso da esposa. E não entende. Não eram felizes? Não vivia para ela? Não riam juntos, tinham coisas em comum, se davam bem na cama? Então por quê? Aonde tinha falhado? O que faltava? Como pudera ela jogar tudo fora, menosprezar seus sentimentos daquela forma? A ruína do homem é comovente. Dá pena e raiva.

Há quem diga que o personagem do marido é bonzinho demais e por isso teria ensejado a traição da mulher. E que seria fraco porque deveria ter matado mulher e amante. Discordo veementemente de ambas as acusações. Ele não é bonzinho, tem caráter e sentimentos dignos, é um bom homem. E por que bons homens mereceriam ser traídos? Por que mulheres preferem os canalhas? Isso é uma besteira sem tamanho. E não é fraco, ao contrário. Precisa muito mais coragem para perdoar a traição do que para matar. Tanto que matou sem nem ver o que fazia, mas para perdoar é que precisou realmente de força e fibra moral.

O filme é doloroso porque mexe com o eterno contraste entre a rotina e a novidade, o tédio e a excitação. E sempre, invariavelmente, a estabilidade sai perdendo em prol da aventura. A diferença entre os lados é grande: de um, brincadeiras de alcova e sexo selvagem; do outro, diversão em família, compromisso e um beijo terno antes de dormir.

O grande erro cometido pela personagem é achar que um caso extraconjugal pode desempenhar o papel de um hobby e que dele poderá sair impunemente, mantendo as coisas sob controle. Mas paixão é algo que inebria, consome, se alastra. Toma conta de tudo e faz todo o resto perder o valor. Arrasa o que encontra pelo caminho feito furacão, assim como a ventania que trouxe o francês pra história.

Há algumas reflexões importantes a serem feitas a partir do filme. Por exemplo, saiba valorizar aquilo que tem. A grama do vizinho só parece mais verde porque está olhando de longe, se chegar perto verá que ela tem queimaduras de sol e insetos, assim como a sua.

Não se deixe levar pelas circunstâncias, não jogue sentimentos e relações verdadeiras pela janela por causa de ilusões e pirotecnia, pois estas sempre se desmancham no ar. Não perca a realidade de vista, não dê asas demais à imaginação. Entenda que embora a paixão possa suplantar o amor em algumas ocasiões, nunca será de fato maior. Ser fiel aos sentimentos é muito bom, mas não se deixe guiar apenas por eles. A razão existe justamente para dosar os sentimentos, para equilibrá-los. Use-a. Leviandade sempre traz dor e sofrimento, mesmo que seja a outras pessoas. Pense um pouco melhor antes de pular no abismo.

E, por fim, a reflexão suprema: que estrago não faz um globo de neve…