Serpentes e Escorpiões – parte I

A moça que desde pequena usava saias abertas de amazonas (mas aquilo, agora, era apenas mais um dos seus hábitos que poderia ser atribuído às misérias de sua nova profissão, como o batom gritante e o cigarro mentolado pendurado atrás da orelha.)

Serpentes e Escorpiões (parte I de II)

– por Rodrigo Monzani

“Quem tem apenas um momento de vida
não tem mais nada a dissimular.”
Quinault

Existe, fora dos corações dos poetas, da literatura gnóstica e do silêncio daqueles que costumam apostar sua própria cabeça com o diabo, a eloqüente e estranhamente familiar música acidental que leva uma vida partir-se ao meio? Num instante fugidio do raciocínio lúcido, no qual os mecanismos do pensamento se tornam mais lentos que os do sentimento, essa tal melodia poderia levar de um extremo a outro?

Jovens não costumam pensar a respeito, mas, silenciosamente, Amália sempre teve a certeza que sim e o fazia movida mais por uma sentimento anômalo, negro como nanquim, enraizado em sua compaixão inescrupulosa e comodista do que na razão propriamente dita e “… quem não acredita nisso é um idiota!” – proclamava furiosa diante de qualquer manifestação nauseante de bondade reprovadora ao que fez.

A menina não gostava de coiotes, ratazanas e escorpiões, mas vendê-los ao colégio para as aulas de biologia e à exposição dos bichos exóticos da biblioteca da cidade lhe garantia uma conta mais poupuda do que as das demais jovens de sua idade.

“- Está vendo aquelas abelhas? São africanas, uma picada pode adoecer um cavalo, até matá – lo se não tiver uma boa saúde. São terríveis, foram trazidas por biólogos mexicanos direto do Sudão na década de sessenta e desde então elas têm espalhado o terror por estas bandas…” enquanto o tio tentava aterrorizar a sobrinha, Amália sabia que as abelhas eram dóceis e embora seus venenos realmente fossem mortais, elas não atacariam se as deixassem em paz.

Ela havia aprendido a caçar com o tio Eldon, que se dizia apicultor profissional e era o mais novo e único solteiro dos irmãos de seu pai. Era o mais engraçado também. Sempre fazia uma piada explorando a semelhança do irmão com Elvis Presley, o que levava Amália a quase chorar de tanto rir. Em troca, o pai da menina costumava contar a história de quando Eldon era jovem e ficara semanas cuidando de uma pedra rara para a feira de ciências promovida pela biblioteca municipal. Levou dias para ler um livro sobre o assunto, anotara o desenvolvimento e formação daquele pequeno pedaço de rocha histórico, guardando-o numa caixa desprezada pela avó cuidadosamente aninhado sobre um chumaço de algodão, sempre preocupadíssimo com a proteção de seu projeto.

No dia da feira de ciências, os professores de Eldon, após uma análise daquela esfera esbranquiçada, chegaram à conclusão de que não se tratava de pedaço de rocha rara coisa nenhuma e sim de uma bala de coco velha. Eldon ficava louco de raiva só de lembrar das expressões quase enfartantes de Jason Kellenger, seu professor de ciências, de tanto rir da bala de coco. Amália adorava essa história também. O tio Eldon jurara nunca mais comer bala de coco, sequer o próprio coco.

Mesmo com o fracasso de seu projeto científico há anos, Eldon continuava a se interessar por ciência. Com sua camisa do The Black Crowes, a banda preferida, e seus dentes pequenos e tortos, o que lhe dava um sorriso mais charmoso do que se fossem perfeitamente alinhados, parecia uma mistura de hippie adolescente com o vendedor de cigarros albino da rodoviária (de quem as garotas mais jovens tinham medo) por causa de sua brancura e cabelos descoloridos.

Para as empreitadas de caça, Amália levava uma forquilha que adquirira na loja de pesca do sr. Wilson, um velho manco de tatuagens desbotadas e lábio leporino que só não assustava mais do que seu papagaio, tão velho quanto ele e carente de pernas, fazendo com que vivesse se reencostando num sofazinho de brinquedo, gritando “Meu nome é Bond, James Bond” de vez em quando. A forquilha era profissional, igual a dos caçadores de jacarés que Amália vira na televisão, mas em escala bem menor.

Além do instrumento, levava uma pequena caixa de primeiros socorros, – presente da melhor e única amiga, Claudia – um chapéu de palha que pegara do avô há anos, um cartão telefônico para ligar para o pai caso fosse picada e um par de botas extras, tudo engenhosamente encaixado na mochila amarelo-fosco que trazia nas costas com a estampa de algum desenho animado que detestava por achar infantil demais e que também fora presente de Claudia.

Na mão, apenas uma lancheira velha, tão odiada quanto a mochila, com a figura caricaturada da famosa careta de Einstein mostrando a língua, na qual tivera dificuldade para abrir alguns furos com um prego para que os lagartos capturados não sufocassem. Eldon nunca levava nada para as empreitadas nos haras. Quando o sol lhe castigava demais, amarrava a camisa na cabeça e reforçava seu ar de pintor rebelde alternativo.

A falta de sombra nos descampados gerava um ambiente desértico, enorme e aparentemente inabitado, perfeito para as pestes que se esgueiravam nos bosques fétidos esquecidos detrás das plantações e dos currais. Amália gostava de pensar que entrar naqueles haras era como viajar para outro planeta do qual ela estava encarregada de trazer espécimes alienígenas para estudo e exposição, uma missão tão importante que ganharia uma medalha quanto retornasse a Terra. A garota não se encabulava em passar diante dos funcionários, marchando como um soldado incumbido de assassinar um líder inimigo, se esgueirando no mato entre seus golpes de caratê desferidos contra o ar e gritos de “- Vocês vão morrer, seus animais!”

Aqueles tipos de vidas escondidas entre os canos da rede de esgoto e os buracos rasos de terraplanagem inacabada faziam com que o lugar quase pulsasse quando o sol se escondia aos fins das tardes: sapos, rãs, girinos, todos os tipos de mosquitos e muitos lagartos, pequenos, grandes, das mais diversas cores que via de regra eram esmagados antes que pudessem se dar conta da presença de algum trator nas fossas imundas de barro que se multiplicavam exponencialmente.

Naquele dia, Amália e o tio estavam com sorte: acharam um ninho de ratazanas cinzas enormes, todas entrelaçadas como um prato de espaguete com seus olhos resolutos e avermelhados pelo sol.

“Vamos atear fogo nelas?” perguntou Amália protegendo os olhos com a mão em concha ao se virar para Eldon.

“Por que faríamos isso com as coitadas?”

“Porque é um ninho. Logo haverá cavalos por aqui. Sabe como é perigoso, as ratazanas sempre voltam para seus ninhos mesmo depois de afugentadas e espalham doenças. Melhor queimá – las”.

A frieza da garota impressionou o tio, que se esforçou para não encará – la demais. Sabia que Amália certa vez vira o pai atropelar um bezerro na estrada rural. O choque com a caminhonete arrancou a cabeça do bicho, arremessando – a diretamente a uns dois metros dela, sentada num tronco apodrecido na beira da estrada. Talvez por isso se achasse livre de qualquer sentimentalismo quando via animais afugentados, ainda mais aqueles nojentos e perigosos.

“Pegue palha e alguns jornais no celeiro, se quiser fazer fogo por aqui.” – Eldon apontou para o fim da estrada de terra. O barracão era propriedade do velho George, uma construção instigante e, embora uns o chamasem de celeiro, em nada se assemelhava com um destes, nunca houvera cavalos por ali. Não parecia ter sido erguido para qualquer uso determinado, mas apenas para constituir uma visão gritante e embriagada daquilo que se poderia chamar desolação. Possuía uma antecâmara ao fim de uma estreita escada sem corrimão na qual, via-se debaixo, existiam pequenos montes de jornais encarapitados em caixas de madeira. Seus alicerces, que pareciam se dissolver na escuridão antes da cobertura de zinco, eram de madeira negra inexistente na região, talvez em todo aquele Estado.

Amália abriu caminho dentro da nuvem de poeira fazendo a madeira ranger sob seus pés e subiu até os jornais, despreocupada, até que as caixas começaram a tremer com pequenos coices e ruídos singulares.

“O que você quer aqui?” – disse a filha do velho George, cabelos soltos e jaqueta, apesar do calor, sentada numa das caixas. Amália não lembrou de seu nome, mas a reconheceu. A moça que desde pequena usava saias abertas de amazonas (mas aquilo, agora, era apenas mais um dos seus hábitos que poderia ser atribuído às misérias de sua nova profissão, como o batom gritante e o cigarro mentolado pendurado atrás da orelha.)

“- Estou procurando jornais.” – disse a menina com voz sumida.

“- Então pegue logo. Meu pai não quer estranhos por aqui e, além do mais… estou esperando alguém.”

“- O que tem nas caixas, por que elas estão se mexendo?”

“- Isso é dos crentes, eles usam nas pregações. Pagam bem para poderem guardá-las aqui.”

“- Guardar o quê?”

“- Ora… serpentes.”