Simplicíssimo

Hoje (1)

HOJE

De certo pensarão que vos quero falar dos dias de hoje, e pensam
muito bem. Ora, morando nos arrabaldes de Leiria, foi enorme o meu
regozijo ao ver que uma loja que caiu em desuso andava a ser
convertida em nova superfície comercial. A fachada foi vedada ao
público até ao dia da abertura, e… qual não foi a minha (agradável)
surpresa quando vi nascer uma… FARMÁCIA!
Fantástico, pensei cá para os meus botões. Já não vou ter que
caminhar uns bons quilómetros para comprar a tintura de iodo de que
tanto preciso para os pés. Dois ou três dias depois da inauguração,
entrei na bem-dita farmácia, teci um rasgado elogio à iniciativa, e pedi
se me podiam aviar um frasco de álcool iodado a 10%. Resposta
imediata dos empregados trajados a rigor com bata branca:
– Ah! Caro senhor, lamentamos muito, nós aqui não fazemos
manipulações, terá que se dirigir a uma das duas únicas farmácias de
Leiria que fazem (ainda) dessas coisas. Sabe, hoje há o Betadine, o
Sensodyne, o Vaicontentemas-semdine, etc..
– Está bem, percebo! Mas será que me podia então vender a
tintura de iodo e o álcool que eu em casa manipulo?
– Bem, o álcool pode comprá-lo no Lidl, aqui a cem metros.

 

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Quanto à tintura de iodo… Só por curiosidade, qual a marca que
prefere? Vou ver se há!
– Qualquer, desde que seja tintura de iodo!
Passados dez minutos, aparece o solícito empregado (de bata já
menos branca), desculpando-se:
– Sabe, não consegui encontrar tintura de iodo na base de dados.
Sabe o nome comercial?
– Experimente Tintex ou Tinturex ou IODOMAX ou ProCalex,
FUNGOMAT, PEDATLETIX…
– Ah, muito obrigado pelas sugestões.
Entretanto vim cá para fora fumar um “cigarrex”, enquanto o
pressuroso empregado pesquisava a sua base de dados. De regresso ao
interior, enquanto passava uma vista de olhos pela montra dos
champôs e dos perfumes, o afadigado e empenhado empregado
chama-me:
– Caro senhor! Lamento (já a bata andava feita num oito), mas
essa tintura não consta de nenhuma base de dados das farmacêuticas.
– Paciência! Lá terei que ir ao centro de Leiria. Mas tem aí algum
medicamento para o pé-de-atleta?
A face do empregado iluminou-se com um sorriso que ia de
orelha a orelha. Abotoou-se e, num ápice, encheu-me o balcão com
mais de vinte produtos – cremes, pós, sprays, inaladores, adesivos,
cápsulas, injecções, clisteres, etc. – destinados a combater o pé-deatleta.
Começou então a falar das virtudes de cada um dos
medicamentos, efeitos laterais e colaterais, manter afastado das
crianças, não tomar durante a gravidez, evitar conduzir sob o efeito da
pomada, não beber durante o tratamento, conservar em lugar fresco e
seco (será para pôr no frigorífico?), etc., etc.. Resultado: lá trouxe uma
pomadita que ando a pôr há uma semana mas o pé-de-atleta continua
assanhado.

 

Henrique Sousa

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