Simplicíssimo

Hoje (2007-01-04)

2007-01-04

Ainda não vos contei o que se passou ontem no laboratório de
Química da minha escola. O meu colega, químico experiente , começou
por me pôr a par do equipamento do laboratório. Tubos de ensaio são
uns copos de vidro engendrados por algum tarado mas, segundo ele
me disse, têm muita utilidade (acredito!) em Química. Um tal de
Bunsen, outro tarado qualquer, inventou uma boca de gás a que deu o
nome de bicos, vejam só. Pude também ver que o pessoal da Química
deve andar na pinga porque, num canto, havia um alambique (também
de vidro) que eu fingi que nem vi para não embaraçar o meu colega.
Depois, ensinou-me que havia experiências perigosas, sendo
necessário equipamento de segurança, luvas, óculos, extintores, e uma
manta que ele felizmente me explicou para que servia, porque senão
eu era capaz de fazer um mau juízo do pessoal que utiliza o
laboratório. A manta serve para, no caso de alguém começar a arder
porque o bico de Bunsen (ou algum salpico de material em chama) lhe
pegou fogo à roupa, a pessoa embrulhar-se na manta, abafando assim
o lume. Bem pensado, comentei. Muito bem pensado, até. Mal sabia
eu…
Dadas as explicações de segurança, passou então a mostrar-me
os produtos que havia por lá, todos com nomes esquisitos, a maior
parte em frasquinhos de vidro com rótulos onde só se viam umas
letras e alguns números. Mas ele chamava-os pelos nomes, bastava-lhe
olhar para as letras e números e sabia o nome do produto. Só então
compreendi porque é que nunca gostei de Química: é preciso ter uma
memória extraordinária para fixar as referências todas que se escreve
nos frascos. O sal de cozinha, por exemplo, disse-me ele que tem a
referência NaCl e o ácido das baterias é o H2SO4. Felizmente o iodo é
simples de fixar, é só I. Perguntei-lhe onde estava o “putássio“ e ele
mostrou-me um frasco maior que os outros, que por acaso já tinha
visto e pensara que era queijo em azeite.
– Mas isso não é azeite? – perguntei-lhe.
– É pois!“ disse-me ele, os pedaços é que são de potássio.
– Mas este “P“ está muito mal feito, pá – disse eu, olhando para
o frasco.
– Capa! – respondeu-me.
– Mas qual capa?
– Não, a letra é o Capa.
Algum colega dele, pelos vistos. Para não parecer demasiado
ignorante, assobiei para o lado. Ele foi buscar uns cartapácios e
começou a procurar. Procurou em toda a parte mas não encontrou
nada. Entretanto sentei-me ao computador que lá havia e perguntei-lhe
se estava ligado à rede. Estava. Comecei então a pesquisar, e o
primeiro resultado foi, como era de esperar, da Wikipedia. Vi, mas
calei-me, podia ser que ele não descobrisse e eu poderia ser o primeiro
a preparar a tintura. De facto, ele não encontrou nada lá nos livros dele
e disse-me que ia à biblioteca pesquisar. Preveniu-me que poderia
demorar algum tempo. Óptimo, pensei eu, quando chegares já eu
preparei a tintura de iodo e ficas mal visto.
Vou ter que interromper agora, porque estão a chamar-me para
fazer o curativo da queimadura que sofri ontem no laboratório quando
pus as caganitas de “putássio” em água e as gajas começaram a arder
nem sei porquê. Se não fosse a manta de que me lembrei a tempo, já cá
não estava a escrever no meu portátil, embora só com uma mão.
Felizmente nada mais ardeu, mas o meu colega deve estar pior que
estragado com o sucedido. Não sei, porque ontem não mais o vi, saí
porta fora a correr para o centro de saúde, onde me prestaram socorro.
Trouxeram um frasco enorme com uma tintura, e eu perguntei-lhes se
seria tintura de iodo porque essa iria arder muito sobre a carne viva.
Não, não era, afinal era apenas Betadine, disse-me a enfermeira. Pelos
vistos a tintura já não se usa mesmo, já nem nos centros de saúde.
Açambarcamento, pela certa.
Hoje, está decidido! Vou ao chinês!
P.S. – Moral deste episódio: Quem se mete com o “putássio”,
lixa-se.

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2007-01-04

Afinal acabei por não ir hoje ao chinês. Mas ainda a respeito da
experiência de ontem no laboratório de Química da escola:
Encontrei, hoje, o tal meu colega de Química, e ele perguntou-me
o que é que se passara no laboratório que, quando ele lá chegou,
encontrou tudo num desatino, e eu já lá não estava. E o que é que eu
tinha no braço que andava com ele todo ligado e pendurado ao
pescoço? Lá tive que me descoser e disse-lhe que tinha posto as
caganitas do “putássio” em água e elas começaram a arder, o que eu
achei um contra-senso porque a água serve para apagar o fogo, e não
para incendiar. Pensei que ele ia ficar zangado mas desatou a rir, riu
tanto que eu já começava a desconfiar que ele não deve ser muito bom
da cabeça. Quando ele, finalmente, parou de rir, é que me esclareceu
que essa reacção do “putássio” com a água era uma experiência
clássica que se mostrava aos alunos, tomando, claro, as devidas
precauções.
– Não ficaste aborrecido, então? – perguntei.
– Não, pá. Mas da próxima não te aventures mais em
experiências de Química, assim como eu não hei-de mexer naqueles
aparelhos marados que tens lá no laboratório de Electricidade. E o que
é que tens no braço?
– Bem, quando o “putássio” começou a disparatar, eu tentei
retirá-lo da água, mas ele cada vez se abespinhava mais e andava como
um espírito louco à superfície das águas, de um lado para o outro, e eu
não conseguia apanhá-lo. Até pensei, nesse instante, no milagre da
Criação, os deuses deviam estar loucos! Nisto, começou a arder a
manga da minha camisa e fiquei com o braço queimado. Ainda bem
que me lembrei logo de correr para a manta onde me embrulhei
rapidamente e o fogo extinguiu-se!
– Bem, vá lá que foi só isso. Mas o que é que te deu para ir logo
pegar no potássio e pô-lo em água?
– Curiosidade apenas…! Sabes, o nome despertou-me a
curiosidade…! E tu, descobriste alguma coisa na biblioteca?
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– Descobri, pois! A receita é muito simples: uns graminhas de
iodeto de potássio e iodo sublimado, dissolvidos em etanol, ou até
mesmo em água.
Essa do etanol eu já ouvi em qualquer lado, acho que tem a ver
com o biodiesel.
– Mas o “putássio” não gosta de água, pelos vistos – disse-lhe.
– Sim, mas o iodeto de potássio dissolve-se em água, e não reage
com ela como o potássio.
Calei-me, é claro! Ele tinha toda a razão, assim como os filhos
podem não sair aos pais, os filhos do “putássio” não reagem
necessariamente como o “putássio”. Mas fica sempre a desconfiança.
Vê-se por alguns políticos que conhecemos bem. Alguns não enganam,
são mesmo filhos do “putássio”, porque andam a queimar tudo o que
tínhamos e a desbaratar toda a riqueza do Estado que é dada aos tios
por tuta e meia. Eles são Hospitais, eles são Escolas, eles são empresas
públicas que se criam com recursos públicos para depois as entregar de
borla aos privados, enfim…
– Olha lá, então já podes preparar a tintura de iodo, não é?
– Poderia se tivesse iodo. Mas acabou-se e a casa que fornece à
escola anda atrasada com a entrega.
– Pois, está bem! Paciência!
Separámo-nos e eu vim a pensar que essa história do iodo se ter
acabado está muito mal contada. Ainda ontem estava lá o frasco… É
certo que já tinha pouco, mas uns graminhas, como ele disse, devia ter.
O gajo já anda é metido com a máfia da tintura…
Foi quando decidi, definitivamente, que tinha que ir finalmente
ao chinês. Eles lá têm de tudo, até têm mais do que nas farmácias.
Acabei, porém, por não ir por causa da reunião de pais de que só saí
agora! Vou, impreterivelmente amanhã, depois das aulas!

Henrique Sousa

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