Simplicíssimo

Liberdade, Responsabilidade e o Sentido da Vida

"Sendo professor em dois campos, neurologia e psiquiatria, sou plenamente consciente de até que ponto o ser humano está sujeito às condições biológicas, psicológicas e sociológicas. mas além de ser professor nestas duas áreas sou um sobrevivente de
quatro campos – campos de concentração – e como tal também sou testemunha da surpreendente capacidade humana de desafiar e vencer até mesmo as piores condições concebíveis." Victor Frankl.

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É provável que o psiquiatra Victor Frankl (1905-1997), pai da logoterapia ou "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia" (as outras foram de Freud e Adler) seja conhecido de muitos. Por isso mesmo considero uma omissão da minha parte ouvir falar dele apenas este ano. Entretanto tenho como me desculpar, dada carga tremenda da tradição freudista nos meios de formação psiquiátrica, que obscurece sobremaneira a maioria das correntes que carreguem objeções à psicanálise.

Em seu ensaio autobiográfico "Em Busca de Sentido", o Dr. Frankl descreve suas vivências em campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Não só descreve experiências que viveu, como tenta sistematizar as observações que fez, descrever uma espécie de psicologia do internado em campos de concentração. Sabem o que achei mais precioso descobrir?

1. A vida sempre pode fazer sentido, mesmo nas situações da mais extrema privação; sempre somos convocados pela vida a dar alguma resposta, alguma atitude que a dote de um sentido.

2. Disto decorre que, mesmo privados de toda liberdade física, expostos à maior humilhação moral possível, entregues a necessidades biológicas urgentes de comida, água, abrigo, ainda assim mantemos uma liberdade que não nos pode ser tirada, uma liberdade para decidir como pretendemos reagir ao mundo tal como se nos nos apresenta e apesar do que nos apresenta. Nós temos autonomia para decidir o que queremos fazer de nós, apesar de todos os determinantes externos ou internos.

“Não se trata de estar livre de fatores condicionantes, mas sim da liberdade de tomar uma posição frente aos condicionantes (…) UMA DAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA EXISTÊNCIA HUMANA ESTÁ NA CAPACIDADE DE SE ELEVAR ACIMA DESSAS CONDIÇÕES, DE CRESCER PARA ALÉM DELAS”.

3 . A liberdade de que fala Frankl vem sempre acompanhada de uma responsabilidade pelas decisões tomadas – o autor leva isso tão a sério que chegou a sugerir, com humor (mas não sem razão), que os Estados Unidos complementassem a Estátua da Liberdade na costa leste, com uma "Estátua da Responsabilidade" na costa oeste.

4. A doutrina da determinação inconsciente do comportamento humano está longe de ser completamente válida. Há uma "vontade de sentido" em nós, uma ânsia por dar sentido a nossas vidas, que não é mera racionalização ou sublimação de impulsos ou desejos inconscientes. “A verdade é que o ser humano não vive apenas de bem-estar”. É preciso que a vida faça sentido para o sujeito.

a. O Inconsciente freudiano, a Vontade schopenhaueriana, a luta de classes
e/ou processo histórico marxista não são o fim da linha para a consciência individual! Ao contrário do que prega o Chauí-nismo, Freud e Marx não estabeleceram “limites intransponíveis para a consciência autônoma” coisíssima nenhuma.

b. encontrar um sentido para nossas vidas nos faz mais fortes; muitas neuroses atualmente podem ser melhor explicadas pelo conceito de "vazio existencial" e carência de sentido, do que por formulações psicodinâmicas (que amiúde tentam explicar esse vazio com a ajuda do conceito de narcisismo). Frankl gosta de citar uma frase de Nietsche: "Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como."

c. se há fatores em nosso passado remoto que podem determinar neuroses em nós, isso não impede que haja fatores em nosso presente que nos propiciem a cura, sem que necessariamente precisemos recorrer à exploração de lembranças antigas, profundas ou quase intangíveis.

5 . Podemos encontrar sentido para nossas vidas em realizações criativas e no relacionamento com as pessoas de que gostamos. Mas também podemos encontrar a realização de um sentido de vida através de nossa atitude diante de um sofrimento inexorável, mesmo quando a morte se apresenta e não pode ser evitada (evidentemente, não se trata aqui de sofrimentos auto-provocados, ou prorrogados por vontade própria – isso seria masoquismo, e não heroísmo).

6 . Não há uma resposta geral e universalmente válida sobre qual é o sentido da vida; nenhum guru iluminado pode nos dar isso. O sentido da vida é diferente para cada sujeito, e mesmo para um sujeito dado, varia de acordo com a sua situação e seu momento na vida. Cabe ao próprio sujeito descobri-lo, ao dar respostas às questões que a própria vida lhe propõe.

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Afora as questões teóricas próprias do sistema do Dr. Frankl, sua descrição das condições de vida nos campos de concentração é muito viva e direta, vale a pena ler com atenção:

“Na primeira noite em Auschwitz, dormi em beliches de três andares, e em cada andar (medindo mais ou menos 2x2x5m) dormiam nove pessoas, em cima de tábua pura; e para cobrir-se, havia dois cobertores para cada andar, isto é, para nove pessoas. Naturalmente só podíamos nos deitar de lado, apertados e forçados um contra o outro, o que, por outro lado, face ao frio reinante no barracão sem calefação, não deixava de ter suas vantagens”.

Outras condições de vida rotineiras nos campos que eu gostaria de citar: a ração díária incluía uma concha de sopa rala e 300 gramas de pão (uma refeição por dia) para uma carga de 12 horas diárias ou mais de trabalhos que exigiam grande esforço físico, atravessando invernos com neve e temperaturas abaixo de zero (muitos não tinham nem sapatos – adivinhem o que acontecia com os dedos). Os que ficavam doentes eram levados para barracões isolados e eram dispensados de trabalhar por um a dois dias, mas então tinham sua ração reduzida pela metade (pois afinal, raciocinava a SS, se eles não estavam trabalhando, a necessidade de comida era menor…). Quem ficasse doente por muito tempo podia contar como certa sua remoção para “campos de repouso” (na verdade, campos de concentração maiores dotados de recursos como câmaras de gás e fornos crematórios).

Citaria ainda, por oportunas, duas passagens em que Frankl comenta sobre Freud e a psicanálise:

“ A psicanálise muitas vezes tem sido criticada por seu chamado pansexualismo. Eu, para começar, duvido que esta censura jamais tenha sido legítima. Parece-me, entretanto, que existe um pressuposto ainda mais errôneo e perigoso, que eu chamo de "pandeterminismo". Refiro-me à visão do ser humano que descarta a sua capacidade de tomar uma posição frente a condicionantes quaisquer que sejam. O ser humano não é completamente condicionado e determinado; ele mesmo determina se cede aos condicionantes ou se lhes resiste. Isto é, o ser humano é auto-determinante, em última análise. Ele não simplesmente existe, mas sempre decide qual será a sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte.”

“Sigmund Freud afirmou em certa ocasião: ‘Imaginemos que alguém coloca determinado grupo de pessoas, bastante diversificado, numa mesma e uniforme situação de fome. Com o aumento da necessidade imperativa da fome, todas as diferenças individuais ficarão apagadas, e em seu lugar aparecerá a expressão uniforme da mesma necessidade não satisfeita.’ Graças a Deus, Sigmund Freud não precisou conhecer os campos de concentração do lado de dentro. Seus objetos de estudo deitavam sobre divãs de pelúcia desenhados no estilo da cultura vitoriana, e não na imundície de Auschwitz. Lá, as "diferenças individuais" não se "apagaram", mas, ao contrário, as pessoas ficaram mais diferentes; os indivíduos retiraram suas máscaras, tanto os porcos como os santos. E hoje não se precisa mais hesitar no uso da palavra "santos". Basta pensar no padre Maximilian Kolbe, que foi deixado passando fome e finalmente assassinado através de uma injeção de ácido carbólico em Auschwitz, e que, em 1983, foi canonizado."

E por fim, uma mensagem final:

Você pode estar inclinado a acusar-me de invocar exemplos que são exceções à regra. (…) mas tudo que é grande é tão difícil de compreender quanto de encontrar, conforme diz a última frase da Ética de Espinoza. Naturalmente, você pode perguntar se realmente precisamos referir-nos a "santos". Não seria o suficiente referir-nos a pessoas decentes? É verdade que elas formam uma minoria. Mais que isso, sempre serão uma minoria. E, no entanto, vejo justamente neste ponto o maior desafio a que nos juntemos à minoria. Porque o mundo está numa situação ruim. Porém tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que pode. Portanto, fiquemos alerta – alerta em duplo sentido: desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo”.

Portanto, prezados leitores, mãos à obra! Não se trata de fazer qualquer revolução, de revolucionários o mundo está esturricado! Trata-se de tomar nas mãos a consciência autônoma, condição de existência de todo o ser humano, e assumir a nossa responsabilidade e o nosso lugar perante o mundo. E ninguém mais senão o próprio sujeito poderá fazer isso por e para si mesmo.

Luiz Eduardo Ulrich

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