Simplicíssimo

Aurora (XL)

XL

 

O caminho é diferente agora.

 

No dia seguinte, bem cedo, nossa atenção redobrou. Propus a Rinaldo uma conversa com o noviço beneditino. O jovem era prestativo, mas de espírito novelesco e pouco arguto, e Rinaldo me disse que pessoas assim são impelidas a agir num caso de grande emoção de um modo que a tornará suspeita aos olhos dos excessivamente perspicazes e desconfiados. Era um distinto cavalheiro, certamente o que não precisávamos para adentrar a sala das ervas. Chegamos, então, ao carmelita e o recrutamos para nossa busca. Ademais, era francês, o que nos facilitaria a obtenção de novas informações em Avignon. Além da vantagem do idioma, da inteligência, da discrição, possuía também a da curiosidade, um noviço com ares de nobreza, mas com a acuidade de espírito de um provençal.

Na mesma manhã, Rinaldo e o carmelita já discutiam sobre como encontrar o responsável pela sala das ervas que, segundo o que vagamente nos disse Mabillon na tarde anterior, era quem ministrava os venenos aos enclausurados:

 

“- Seguiremos as lições daqueles clérigos que estudam o racionalismo em Paris, ou filosofam sobre a prudência dos atos incógnitos em Bolonha, ou medicina silvestre em Salermo, ou magia em Toledo, já que em nenhum destes lugares se aprende bons costumes.” – disse o carmelita.

 “- Sim”- concordei, “- deveremos agir hoje ao fim da tarde, quando se reiniciam as discussões. Nossa preocupação deverá ser não apenas nos mantermos invisíveis aos olhos alheios, mas também não cair vítima dos perfumes da sala. Presumo que os aromas possam nos levar a ter visões irreais, o que nos afastaria de nosso objetivo.”O carmelita andou ao redor, olhos fixos no chão: “- Exato, meu caro. Mas como faz o próprio herborista para não cair vítima daqueles aromas? Talvez as ervas fiquem resguardadas em ampolas e recipientes especiais, isoladas para a manipulação cuidadosa que exigem” – ele apontou através da janela para o fim do despenhadeiro do palácio.

“- Veja aqueles pequenos túneis na muralha. São as saídas dos resíduos do palácio.”

 

A abadia guardava diversos nichos alongados na parte anterior das muralhas por onde eram eliminados os lixos e se fazia doações aos andarilhos pedintes daquela região.

“- Se pudéssemos escalar um daqueles túneis, chegaríamos a sala das ervas. Basta que saibamos qual deles é ligado à sala do herborista. Para isso, observaremos o tipo de lixo que é eliminado por cada um deles.” – ele concluiu.

“- Mas por que adentrar a sala pelo seu esgoto, e não pela porta? Podemos tentar sem que nos metamos no meio de toda aquela porcaria.” – perguntei olhando para o lixo abacial que se amontoava nas margens do riacho.

 “- Uma teoria baseada nas qualidades de uma facilidade impedirá que o objetivo se desenvolva de acordo com o planejado, pois facilidades são levadas em conta apenas por suas causas, e não pelos resultados que podem propiciar. Assim, agir com prudência demonstrará que toda ciência que é posta em prática se converte num sistema de erros que, ao serem classificados em sistemas, abrigam em si o equilíbrio do próprio objetivo e da própria ciência. Parece-nos deveras difícil subir até a sala pelo seu ducto de lixo, mas o que nos parece um erro intervirá a nosso favor, pois aqueles que resguardam a sala, certamente, prevêem apenas as qualidades das facilidades para adentra-la, mas não a imprevisibilidade de seus caminhos mais injustos, caso contrário não seriam imprevisíveis.” – argumentou Rinaldo, no que o carmelita completou:

“- … e nem injustos.”

 Assim, na injustiça que se abriga em escalar túneis de lixo, esperamos a tarde e decidimos agir. Antes, porém, enquanto as ordens ainda se agrupavam para as discussões no salão principal, o carmelita nos fez uma ressalva:

“- E não pode ser aquele mesmo monge o herborista?” – perguntou, indicando Mabillon com os olhos enquanto olhávamos para o jardim através da janela.

 

“- Não acho que seja ele. Nos disse que é apenas o jardineiro, e já me basta. Não parece gozar entre os seus do prestígio que um erudito gozaria, caso fosse o responsável pela ministração de venenos aos enclausurados.”

 

“- Mas certamente tem acesso à sala.”

 

“- Não tenho certeza. Já vi durante estes dias o cozinheiro, o responsável pelos banhos, o bibliotecário e o jardineiro, mas do herborista pouco se fala.”

 

“- Deve ser um recluso, como cabe aos eruditos que fazem do conhecimento um modo de vida. Mabillon certamente o ajuda com a estufa, mas tenho a convicção de que não tem acesso às ervas.”

 

“- Talvez, mas e se encontrarmos o herborista em sua sala, quando escalarmos os ductos de lixo?”

 “- Fácil, observamos primeiro a saída dos materiais pelos ductos. Aquele que expelir luvas, ou caules macerados, por exemplo, será o da nossa sala; que certamente estará ocupada por alguém. Esperamos, então, o fluxo de resíduos cessar, então subiremos mais seguros de que ninguém nos pegue de surpresa. Além disso, vamos primeiramente observar a sala, descobrir alguma passagem que leve às masmorras; e deveremos faze-lo no silêncio e no escuro.”

 

A hora das discussões enfim chegou, e apressamo-nos no caminho de saída das muradas. Nestas horas, os guardas voltavam-se todos para a entrada principal e às escadas que levavam à sala de discussões, deixando as laterais, que apenas poderiam ser alcançadas por quem já se encontrasse dentro da abadia do palácio, solitariamente desguarnecidas.Saímos e inspecionamos o lado posterior da construção encostada à murada. Vimos todos os ductos que davam para o precipício, morrendo continuamente abraçados por uma grande vala ao lado do riacho. Havia uma estreita passagem por onde pudemos caminhar.“- Devemos ter cuidado, o barro se mantém intacto aqui e pode deslizar a qualquer momento. Além disso, nossos passos deixarão marcas evidentes, por isso voltaremos pelo mesmo caminho para apaga-las.” – falou-nos Rinaldo, que já estava contornando a parte mais alta do caminho.

 

Após alguns passos meticulosos, chegamos os três à margem do pequeno rio a nossa esquerda, livre dos lixos que se acumulavam a direita, na vala. Procuramos nos encostar na murada, dificultando a visão de quem olhasse de cima. O dia era claro, o que nos facilitava a observação, e após um longo tempo de espera o lixo parou de cair.

“- Mas vejam” – disse “- todos os ductos pararam ao mesmo tempo. Significa que o lixo não chega à vala diretamente, mas fica antes armazenado em algum compartimento que só é aberto no tempo acertado.”

 

“- Com isso perdemos a segurança, pois como saberemos que a sala das ervas estará abandonada com o fim de seu lixo, se o mesmo não cai diretamente?”

 

“- Sim, mas percebi algo melhor” – respondi a Rinaldo enquanto o carmelita apertava os olhos para os túneis.

 

“- Quando o lixo foi liberado para a vala, todos os túneis funcionavam ao mesmo tempo, mas apenas aparentemente. O mais alto em momento algum expeliu qualquer resíduo.”

 

“- Uma sala abandonada?”

 

“- Não, pois não vistes que após o despejo os túneis cuspiram para fora uma forte corrente de água?”

 

“- Ora, é a limpeza.” – respondeu-me o carmelita.

 

“- Sim, e novamente nada saiu daquele túnel, fato do qual podemos inferir que o mesmo se desenvolve para baixo. Não é uma saída de lixo, as quais utilizam a gravidade para fazer escorrer seus materiais para a vala. É uma entrada de ar.”

 

O tempo se esvaía. Rinaldo, que havia levado sua ampulheta de madeira, nos alertara sobre o próximo fim das discussões e, enquanto voltávamos com a preocupação de apagar nossos vestígios pelo mesmo caminho de chegada, constatamos que aquele túnel era o único fechado por grades.

Rodrigo Monzani

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