Simplicíssimo

Aurora (XXXIX)

XXXIX  

– Descobristes por onde passa a verdadeira fome.

 

“- É inútil procurar iludir-nos” – dizia-me Rinaldo aos sussurros enquanto passávamos pelos corredores “- tentando olhar de maneira singular para cada fenda que estas paredes possam esconder. Temos que conversar com aqueles que conhecem estes labirintos, até mesmo os olhos mais mansos e sutis podem esconder exames minuciosos dos caminhos que levam às masmorras.”

E que diferença de olhares, devo dizer, nos rodeava em Avignon! Cada fisionomia sorridente e bondosa parecia camuflar as mais diversas enfermidades da malignidade, maus humores demasiados excitados para passarem despercebidos, mas controlados com escrúpulos para não serem pronunciados em alta voz.

O imperador, soubemos, chegaria dentro de três dias, para o encerramento do Concílio. Murmurava-se sobre sua chegada e Rinaldo profetizou que, se quiséssemos encontrar Alermano devíamos nos apressar, uma vez que o palácio se encheria de guardas imperiais; e completou: “- Por mais relapsos que sejam, não podem ser pior que estes do papa.”

Naquela tarde após a ceia, ao voltarmos para os aposentos franciscanos, percebemos pela janela um homem recurvado e muito velho passar pelo jardim. Embora não tenha compreendido, ouvi alguém pronunciar seu nome umas duas, três vezes e ele se mostrou de uma frieza glacial.“- Quem é ele?” – perguntei com um fio de voz a Rinaldo.“- Não sei, mas acho que tive uma boa idéia. Pensa: Se existe alguém que pode nos informar os caminhos das masmorras, ninguém melhor que estes monges que aqui trabalham.”

“- Mas não podemos simplesmente perguntar onde ficam…”

“- Obviamente, mas somos noviços, e como noviços, não gozamos de qualquer prestígio que estes que aqui estão possam ter. Por outro lado, não podemos também sofrer com qualquer desconfiança alheia. Veja-o bem, não consegue ao menos caminhar direito” (e agora ele apontava com os olhos para o velho que caminhava pelo jardim) “- uma conversa conosco será o seu alento, ou não sabes como são os mais velhos quando têm a surpresa da presença de noviços?” 

Fomos, então, ao seu encontro. Percorremos o corredor central e saímos pela porta por onde tínhamos entrado. Enquanto nos voltávamos para a escada que levava ao jardim, vi que o homem não era tão velho como me parecera ao vê-lo de longe, e se recurvava não pela idade, mas por algum acidente ou castigo que lhe fora imposto. Disse que era Gilles Mabillon, e apenas pude entende-lo porque falava latim tão mal quanto eu mesmo. Barton certa vez durante uma de nossas aulas no navio, me dissera que meu mau latim me causaria finis est omnis laboris, mas àquele momento foi-me providencial. Mabillon falava com sotaque francês, sorriu-nos e nos cumprimentou com urbanidade. Rinaldo, fruto de suas leituras, conservava algumas expressões francesas na cabeça, e foi o suficiente para nos entendermos.

“- É uma pena que nos visitem justamente nesta época de brumas e frio. Nos dias mais quentes e especialmente na primavera, com toda sua magnificência, estas flores, e cada uma mais bela adornada por suas pétalas, cantam melhor as glórias do Senhor.” 

“- És o ….” – Rinaldo procurava a expressão em francês, até que Mabillon o completou.

“- Jardineiro. Sim, um monge como eu não pode servir ao senhor de maneira mais oportuna. Em meu estado, apenas posso dedicar-lhe minha oração, meu jejum, minha misericórdia e meus conhecimentos silvestres.”

“- Ouvi dizer que este é um dos mais belos jardins franceses.” – disse-lhe, lembrando de Barton, pois até mesmo hoje não ouvi sequer um comentário sobre qualquer jardim que possa ter existido na França.

“- Oh, sim, caríssimo… temos aqui das mais variadas ervas, das boas e das ruins.”

“- Das ruins?” 

“- Sim, aquelas que provocam maus sonhos e miragens, que elevam o espírito esfomeado às loucuras de um paraíso inexistente e que fazem muitos monges se afastarem da boa razão.”

“- Acredito que muitas das especiarias que estamos apreciando nas ceias deste Concílio sejam cultivadas aqui, não?” – perguntei-lhe, enquanto caminhávamos, os três, absortos pelo sol do fim da tarde.

“- Tens razão ,meu jovem. Temos trufas, feijões, abóboras, mostardas, cebolas e algumas outras, mas nem todas podem ser cultivadas durante todo o ano.”

“- Mas as plantas podem ser cultivadas mesmo em climas adversos, quando se cuida devidamente de seu entorno, de seu terreno.” – rivalizou Rinaldo com as mãos cruzadas as costas.

“- Eh, eh, tens razão, mas estes cultivos especiais são realizados na estufa.”

“- Estufa? Não a vi ainda. Onde fica?”

“- A estufa é retrato da misericórdia do senhor, que mesmo não acavalando nestas colinas os ventos quentes durante todo ano, nos dá a razão para bem cultivar a terra. É também o hábito de uma arte que indignamente pude desenvolver pelos méritos de meus mestres que hoje nos vêem dos céus e sabem que bons alimentos são lá cultivados para todos.”

“- Até mesmo para os enclausurados?” – perguntou-lhe Rinaldo, me olhando de soslaio. Mabillon fez um breve silêncio, intrigou-se por um instante, mas continuou num sorriso:“- Sim, afinal somos todos filhos de Deus.”

“- Enclausurados… mas quem são eles?” – perguntei virando os olhos para os dois (“Não mintas, mas isole a verdade para que ela possa ser temida” – aquela frase de Barton me apareceu como um raio)

“- Ora, mas és um parvo mesmo… não sabes que aqui estão as masmorras que abrigam os condenados pela inquisição?” – disse-me Rinaldo, teatralmente, enquanto Mabillon apressou-se em esquivar-se do assunto.

“- Ora, mas o que leva dois noviços a tantas perguntas numa tarde tão bonita?”. Rinaldo ajeitou-se e contou-nos a respeito de algumas idéias sediciosas que havia ouvido a respeito daqueles hereges, e o monge abriu os braços, fitou o vazio por alguns instantes, baixou o tom de voz e disse:

“- Filho, conheço bem pouco o caráter do Maligno, mas estou a par de todos os desatinados, renegados, pecadores, ambiciosos, falsas testemunhas, ladrões, iconoclastas e aqueles que patrocinam eventos que negam a Cristo, além daqueles que por escárnio à Igreja batizam os cães. Pretendem filosofar e acusar-nos com perguntas imprudentes e usam cada resposta para justificarem seu ateísmo. O que é certo é não dar ouvidos a tais seduções.” 

Padre Gilles Mabillon cumpria de bom grado aquele seu ofício de jardineiro; e as trevas que se abriam nos novos tempos davam-lhe a razão de sua discrição quase cínica, conduzindo-o a uma espécie de devoção ao seu trabalho, e mantendo-o à parte das discussões heréticas que proliferavam afora daqueles muros, mas que agora se aninhavam tão perto com o Concílio do Santo Suplício. Quando Rinaldo lhe perguntou a respeito de suas ocupações na estufa e nos demais jardins do palácio, respondera com entusiasmo a respeito de um erudito:

“- Já devem ter ouvido falar de Vicenzo Locci, aquele que, assim como o padre Roger Bacon usa a razão para explicar o universo, e que conseguiu viajar por mares nunca navegados, reunir relíquias nunca sequer tocadas por mãos humanas, concluir pensamentos através de visões que até mesmo as imagens mais miraculosas sequer imaginaram, ou olhos jamais puderem ver. Tenho em alta conta alguns instrumentos mecânicos de Vicenzo para manter os jardins e a estufa da abadia neste palácio, mas não são para serem expostos por aí.” 

“- Por que são perigosos?” 

“- Podem ser, mas a trama de palavras deste Concílio, a idéia inaudita e perspicaz é mais perversa. São elas que trancam aqueles bastardos nas masmorras, que Deus tenha piedade de suas almas até o último tocar da sétima trombeta!”

“- Sim, as masmorras… onde ficam, como chegar lá?” – perguntei diretamente enquanto o velho jardineiro ainda se recompunha de sua excitação. Ele, então, se calou e conduzira-nos para fora do jardim, passeando, e subimos aos espaldões num lugar ainda mais tranqüilo daquela tarde. Tínhamos uma boa visão de quase todo o corpo do palácio e o velho continuou falando de maneira enigmática:

“- O que vêem, meus filhos?”

“- Vejo o torreão principal, a saída da cozinha, o muro que dá para o despenhadeiro, o seu jardim, o celeiro e mais aquela construção…” – respondeu Rinaldo, protegendo os olhos dos últimos raios de sol com a mão em concha, olhando ao redor.

“- Aquela construção é sala das ervas especiais. Cultivamos lá todos os tipos de ungüentos e drogas para os presos, para que possam suportar seus tormentos até que chegue a hora de cada um.” 

“- Curam as chagas dos prisioneiros para depois lhes impor as piores?” – aparvalhou-se Rinaldo, elevando o tom de voz.

“- A morte ser-lhes-ia uma saída fácil, meu caro noviço, mas não temas por eles. Não podemos inquirir diariamente e para mantê-los vivos são necessários alguns preparados especiais. São venenos que ministrados nas doses corretas podem manter-lhes a vida enquanto sofrem.”

Fizemos, Rinaldo e eu, um silêncio duro até o jardineiro continuou:“- É o seguinte” – ele disse se ajeitando de uma maneira estranha, mordiscando o canto dos lábios “- em termos exclusivos da virulência, existem diversos venenos excelentes, em geral muito superiores àqueles cogumelos que mesmo nas doses mais ínfimas podem adoecer alguém gravemente. Há, nestas matas, dedaleira e acônito aos montes, em alguns trechos são cultivados junto às trufas. Alguns porcos, procurando por trufas, acabam comendo estes venenos e morrem instantaneamente… o fato é que há também heléboro, mandrágora, puro óleo de losna. Utilizam alguns destes como repelente orgânico das pragas de verão, mas se misturadas com farelo de papiro, podem ter efeitos curativos nas doses certas… efeitos curativos e alucinógenos. O problema está na hora de ministrar tais ungüentos, pois a amatoxinas criam problemas e os presos têm convulsões, vômitos, cegueira. As masmorras são, na verdade, uma sucursal do inferno, qualquer homem são preferiria o chiqueiro a botar os pés por lá.”

“- Mas como fazem para encontrar a dose certa para manter os presos vivos até seus julgamentos, e não mata-los de uma vez?” – perguntei, apertando as mãos.

“- Não me especializei em botânica, mas os estudos de Vicenzo Locci dizem muito a respeito. Até mesmo os micetólogos encontram dificuldade em distinguir as amanitas, por exemplo, que são venenos mortais.”

“- Vocês apenas testam as doses, esperando que alguns vivam e os outros morram, acertando assim as medidas?” – o velho fez um sinal estranho com as mãos, algo como para encerrarmos o assunto.

“- Há muito que aprender, e todo aprendizado na terra será utilizado, um dia, para a glória do Pai.” – disse, e se virou agilmente antes de ir. Rinaldo e eu trocamos olhares.

Sabíamos que deveríamos encontrar o responsável pela sala das ervas, só não sabíamos como.

Rodrigo Monzani

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