Simplicíssimo

Aurora (XXXVIII)

XXXVIII  

 

– Vais de leste a oeste no Éden.  

 

Na manhã seguinte tomamos nossos lugares no auditório enquanto monges de todas as partes do mundo, em latim, discutiam os rumos da fé católica.“- Minha preocupação” – dizia um eclesiástico africano, mais velho que os demais, com longas barbas à moda antiga “- é que o desvio cristão que hoje tristemente assistimos se confunda com as faces da ironia. Senhores, vejam: há vinte anos, a Santa Madre Instituição formava mil padres por ano, hoje, não mais de cem! A presença dos fiéis nas missas cai verticalmente, não percebemos mais o engajamento social dos cristãos, que agora se voltam às guerras e se esquecem do trabalho comunitário. Enquanto isso, protestantes e outras minorias religiosas se proliferam entre o povo. Por povo, digo após quarenta anos de ministério, seria bom entender a universalidade dos cidadãos, uma vez que entre os cidadãos estão as mulheres e os mal viventes, os obtusos e os hereges, desta forma, não podemos esperar que a vontade popular venha de encontro àquela do Santo Papa (e aqui ele apontou teatralmente para Clemente), ou possa exprimir a vontade do próprio povo santo de Deus. Temos, então, que agir para inibi-los, assim como acabar com seus mitos, suas filosofias evasivas e vazias para que se voltem novamente para a verdadeira história da fé!” 

Neste momento, um monge com ar virtuoso, o mesmo que havia discursado com o abade no caminho antes de chegarmos a Avignon, fez um sinal de reverência em direção a Clemente, recurvado em sua cadeira central, claramente debilitado; e também para o africano, e numa miscelânea de termos italianos, em latim e um sotaque provençal que lhe revelava o passado nas aldeias do sul siciliano, pediu a palavra enquanto caminhava para o púlpito.

“- Senhores, a preocupação é nobre. Tratemos a questão, então, com inteligência: Que Deus tenha separado o céu e a terra, o dia e a noite, a terra e as águas, e tenha criado do nada a vegetação, as estrelas, os monstros marinhos e os seres vivos segundo suas espécies, e depois o homem à sua imagem e semelhança, e tudo em seis dias é mais do que provável para os hereges; lhes é verossímil não porque tenha ocorrido de verdade, mas porque o mito que o relata é coerente…” – e neste ponto o auditório estremeceu num murmúrio espantado, cochichos e gestos de reprovação, mas o jovem continuou: “- e, mesmo que não compartilhem nossas pautas de realidade, não se pode apontar na Sagrada Escritura nenhum sério anacronismo. Do ponto de vista narrativo, poderíamos destacar, no máximo, uma certa desordem na Criação, alguma falta de método e até de necessidade: um demiurgo que criou o universo a partir do nada também deve ser capaz de cria-lo de uma vez, num milésimo de segundo, tal como é agora, e não aos poucos, trabalhosamente, ao longo de uma exaustiva semana de esforços.” 

“- Senhor Mazzini, mas o que estás a declarar? Estás blasfemando na santa casa do pontífice!” – todos olharam para a direção daquela reprimenda. Era o velho mestre franciscano, se agitando lentamente com os olhos esbranquiçados.

“- Apenas apresento-vos a visão das aldeias. Se alguns daqui puderem notar, meu sotaque vem das vilas sicilianas, cresci entre estes hereges e apenas encontrei a ordem e a grandeza da fé nos últimos anos. Mas como dizia, é com Caim e Abel a leste do jardim do Éden que começam as complicações. Depois de cometer o fratricídio, quando as recriminações de Jeová o fazem tomar consciência do horror de seu crime, Caim, como sabemos, exclama: ‘Quando estiver fugindo e vagueando pela terra, quem me encontrar matar-me-á’ conforme lemos no livro dos Gêneses. A cena, senhores, é extraordinariamente intensa, mas com a interpretação que se pode fazer a respeito da criação, sabemos que Caim não corre o menor risco de assassínio, porque depois de matar o irmão, ele é o único ser humano que restou no mundo. Eis o que comentam alguns dos simples dos povoados, pois o fato de não encontrar outro homem algum que possa lhe fazer justiça não impede que Caim emigre para o oeste do Éden, para um lugar chamado justamente Errante e nem de conhecer uma mulher e ter uma vasta descendência.”

“- Mas senhor Mazzini, muitas das passagens bíblicas se amarram em límpidas parábolas para o bem entender exatamente dos mais simples…”

“- Mas não se deve cometer o erro, de inteligência e de gosto, de zombar da capacidade de questionamento destes mesmos simples, senhor abade. Desde séculos nossos melhores eruditos realizaram monumentais tratados de mitologia e tentaram, das mais diversas formas, enquadrar a lógica oculta dos mitos em sistemas.”

“- Chamas a Sagrada Escritura de mito?” – aparvalhou-se um homem pingue, mas ágil dentre os carmelitas franceses. 

“- Digo que, se podemos compreender os mitos em sistemas que não sejam de domínio exclusivo da fé, mas de maneira analítica, como não poderíamos explicar a sagrada escritura desta mesma forma? Muitos dos hereges, antes de sê-lo, dedicaram anos de reflexão minuciosa e exaustiva à mesma questão. Obviamente não trato aqui de indagar a lógica interna de certos mitos, e sim sua veracidade – mas somente quando pretendem se passar por verdadeiros. Queimamos livros inteiros que dedicam seus capítulos à análise comparada de Homero e de nossos evangelhos, mas depois de analisar as respectivas retóricas que tais volumes continham pude concluir que pode-se abrigar facilmente objeções históricas quanto à Guerra de Tróia e aos erros de Ulisses” – e neste ponto do discurso, os gregos se ajeitaram nas cadeiras, ruidosamente, “- e ainda assim experimentar, na leitura de Homero, o efeito que a fé pode causar nos leitores; mas quem não crê na oferenda de Abraão não pode fazer do relato bíblico o uso para o qual o mesmo foi destinado. Precisamos, se quisermos realmente cativar as pessoas, ir mais longe. A pretensão de verdade da Bíblia não é somente mais urgente do que a de Homero, mas também é tirânica, exclui qualquer outra pretensão!”

Os monges se levantaram aos gritos, o papa Clemente, que até então parecia estar presente somente em corpo, deu mostra de seu espírito, batendo um pedaço de madeira cuidadosamente envernizado que trazia para se apoiar, ao lado da cadeira, mas não conseguia dizer nada. Elevando o tom de voz, o jovem monge, no centro do púlpito continuou:

“- O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira – ela pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado a um domínio exclusivo. Diante dessa exigência, é natural que as contradições dos mitos suscitem objeções. Boa parte do pensamento esteve em guerra surda e declarada diante desta exigência. Devo observar que, para certos intérpretes racionalistas das Escrituras, com os quais não convém dizer se concordamos ou não, o narrador dos relatos bíblicos devia mentir deliberadamente, pois, estes mesmos relatos não procuram o nosso favor, como os de Homero, não nos lisonjeiam, para nos agradar e encantar – o que querem é nos dominar!”

Os murmúrios de reprovação deram lugar a uns de zombaria, e como ninguém adentrou o círculo do púlpito para interromper o jovem, ele recuperou o fôlego e recompôs o tom de voz suave, colocando as mãos dentro das mangas de sua túnica alva, olhando ao redor agora de maneira impassível: “ – Os senhores poderão me dizer que também é plausível a opinião oposta, ou seja, a de que o autor desses relatos acreditava apaixonadamente neles, mas o que há de reprovável na comparação que nossos eruditos fizeram com Homero não é a descrição do narrador bíblico, e sim o tratamento que se dá ao filósofo em questão.” 

“- Os textos homéricos são inofensivos.” – disse um deles. 

“- Se o são, é somente no sentido de que não nos ofendem, não nos atacam e nem nos chocam porque não tentam se impor como únicos, excluindo todos os demais com fins de dominação, pois não se pretendem ditados pelo mesmíssimo Senhor do Universo para que a espécie humana aceite seus dogmas como indiscutíveis. E, embora nada saibamos sobre quem os concebeu e quase nada saibamos também a respeito da maneira como tais cantos chegaram até nós, podemos inferir, pelo que sabemos de outros grandes narradores mais próximos dos nossos tempos, que seu autor – ou autores – também acreditava na profunda necessidade de suas histórias. Mas Homero teve notórios contestadores que contestavam justamente a veracidade de seus relatos. Platão foi um deles. Não raro, o tom com que ele se refere a Homero destila certa condescendência.”

“- O que queres dizer?” – perguntou o abade, arqueando o tronco sobre os joelhos, sentado na cadeira.

“- Pouco importa a verdade de uma história; o que conta é o uso que a sociedade faz dela. Se as intensas visões Bíblicas repugnam muitas inteligências, é por causa da apropriação que se faz delas, com os fins mais diversos. Seus apropriadores, nós, veneráveis, nós mesmos, as decretamos como obrigatoriamente verdadeiras, não alegóricas como alegóricas são as parábolas de Nosso Senhor, nem simbólicas, e sim autênticas, afirmação que nenhuma mente crítica poderá aceitar, ainda que seja a essência dos mais simples homens das aldeias que se aninham nos Pirineus. Uma narração, como a de nossa Sagrada Escritura não deve ser imposta como verdadeira, e excluir suas oposições, pois não é verdadeira, nem falsa, simplesmente é! O que leva muitos dos simples a deixarem de ler os relatos bíblicos não são os relatos propriamente ditos, mas os usos que estamos fazendo deles, a razão pela qual os pregamos. Queremos domina-los, e eles não querem a dominação. A terrível história de Caim e Abel é um mito universal, a matriz de uma situação humana que se repete sem cessar e se repetirá até o fim dos séculos; o sinal que Jeová lhe imprime para protege-lo de eventuais vinganças talvez seja a filiação trágica que o texto atribui à espécie humana, ou apenas um inábil artifício para justificar o quinto capítulo do Gênese (e agora o jovem esticou as mãos para fora da túnica, as banhou na água segurada pela criança de madeira a seu lado e procurou com os olhos apertados o versículo que lhe convinha) em que se detalha a descendência de Adão até os dias em que o autor escreve. Temos opções que são estranhas ao próprio relato, acréscimos heterogêneos à sua essência com a única função de faze-lo coincidir com uma suposta verdade histórica. No fundo, a razão pela qual se acredita em Deus ou numa narração herética é a mesma: no enigmático fluir do tempo, na estranheza do próprio ser e na opacidade caótica do mundo, ambos oferecem uma aparência de realidade, um sentido possível, a inteligibilidade de uma ordem natural. A diferença é que, quando falamos de Deus, se trata de uma promessa que ninguém entre os humanos está autorizado a formular, ao passo que, no segundo caso, trata-se de um prazer vívido e imediato do qual participam todos, a um só tempo, com imaginação, emoção, inteligências, sede de saber."

“- O que proponhes, então?” – disse o abade, estupefato enquanto o restante do auditório se retirava em fila indiana, resmungando expressões em suas línguas de origem. O jovem monge, então, pareceu fitar o alto da grande janela que dava para o abismo pedregoso da sede, colocou as mãos juntas frente ao púlpito, fechando a Bíblia até então aberta, e antes que alguns outros de sua própria ordem o pegassem pelos braços, cabisbaixos, para tira-lo dali, ele falou: “- Que deixemos de nos impor como a única verdade, que reconheçamos nossa verdade mítica, e como mito, passemos a aceitar suas idéias contrárias, que cativemos por simpatia, e não imposição, e que não façamos, dos hereges, cinzas, pois, como se pode ver, suas verdades não são mais verdadeiras que as nossas próprias.” 

Enquanto saía, olhei para o papa Clemente de soslaio, e percebi, em sua dura imobilidade febril, um sorriso, ou uma espécie de satisfação, antes que alguns diáconos se propusessem a levantá-lo. As discussões foram encerradas até segunda ordem, o que deu-nos tempo, a mim e a Rinaldo, para algumas investigações dentre os monges que não estavam ali para o Concílio, mas que, como o encarregado da dispensa, dos banhos, da cozinha e dos livros trabalhavam desde sempre dentre aqueles muros.

Rodrigo Monzani

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