Simplicíssimo

Depois, o verão

  Seus olhos a encontraram pouco depois de entrar no ônibus. Algo nela chamou sua atenção. Mas não apenas sua beleza, algo mais.   Ela estava de costas. O que primeiro viu foram seus longos cabelos castanhos claros. Foi o que chamou sua atenção. Parecia que já os havia visto em algum lugar, que já passara por eles suas mãos. Eles escorreram em algum momento por elas, em um passado não muito distante.   Teve de passar por ela, por suas costas. Não conseguira ainda ver seu rosto por inteiro. Apenas de relance, e de perfil. Naquela dança dentro do ônibus completamente cheio, não podia parar para admirá-la. Entre braços, coxas e bundas, todos suados, num calor absurdo de primavera, esgueirou-se para passar pela catraca e finalmente poder ficar em pé de maneira decente.    Machucou e machucou-se, mas enfim conseguiu estabilizar-se. Alguns pontos depois, metade dos passageiros descia, e finalmente conseguiu sentar-se. Ela, que estava do outro lado do veículo, ainda de pé, passou pela mesma catraca e sentou-se de frente para ele.   Podia finalmente vê-la por inteiro. Seu rosto era mesmo muito bonito, assim como seu corpo. Precisava disfarçar seus olhares. Estava de óculos escuros, o que ajudou um pouco. Ela olhava tudo passar pela janela, mas às vezes seu olhar ia em sua direção, e ele precisava desviar e também olhar para a janela, ou para o outro lado, para a cobradora, ou para baixo, enfim.   Olhos verdes, pele branca e aparentemente bem cuidada. Tudo nela o atraía e o fazia sentir nostalgia, mas ele ainda não sabia de quê.    Por um instante ele imaginou suas mãos percorrendo um corpo. Semelhante ao daquela que estava ali à sua frente. Beijava-o freneticamente, em todos os locais possíveis. Suas carícias acompanhavam o ritmo de seus beijos, e seus dedos passeavam por sua nuca, seu pescoço, seus seios, sempre de maneira lenta, porém, intensa. A busca pelo prazer continuava, agora pelo seu ventre, depois por suas pernas, suas coxas fortes e instigantes. Entre elas, o local preferido e, para ele, o mais belo. Pêlos castanhos claros, desenhados e aparados cuidadosamente, atualmente o modelo mais comum entre as brasileiras. Cuidadosa, intensa e carinhosamente, sua mão repousara ali. Depois, a satisfação cúmplice.   Imaginara tudo aquilo, mas não conseguia enxergar naquele devaneio o rosto daquela mulher que estava ali à sua frente. Concentrou-se um pouco mais e finalmente pôde constatar que suas lembranças de um passado não muito distante possuíam veracidade. E um rosto.   O rosto daquela que amara. Por apenas alguns dias.   Depois, o verão.

Rafael Rodrigues

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