Simplicíssimo

O Fundamentalismo Norte-Americano e os Dissidentes.

O Fundamentalismo Norte-Americano e os Dissidentes. 

O apoio do governo norte-americano às organizações terroristas não é um pecado da Guerra Fria, um fato ocorrido na época da luta do “mundo livre” contra o “demônio soviético”. Uma grande quantidade de provas demonstra como a rede militante islâmica foi apoiada pelos EUA e por outras potências, até o dia 11 de setembro de 2001 com o objetivo de fortalecer a agenda política externa de Washington.

 O governo norte-americano não pode negar seus vínculos com o que hoje chama de terrorismo islâmico. Um exemplo disso é que, embora a CIA admita que Osama Bin Laden foi um agente ativo dos serviços americanos durante a Guerra Fria, esta relação vai muito mais longe. A maioria das informações divulgadas considera os vínculos de Bin Laden-CIA como pertencentes à época passada da guerra soviético-afegã. Perdido na história recente, o papel da CIA no apoio e proliferação das organizações terroristas internacionais, durante a Guerra Fria e seqüelas, é curiosamente ignorado ou subestimado pelos meios de comunicação ocidentais, além de ser erroneamente considerado irrelevante para compreender os fatos que envolvem os movimentos reacionários atuais. 

Um exemplo descarado dessa distorção é a chamada tese do blowback, pela qual, numa acrobática distorção da lógica, o governo americano e a CIA são apresentados como pobres vítimas: Os sofisticados métodos ensinados aos grupos radicais islâmicos e as milhares de toneladas de armamentos que lhes foi entregue pelos EUA e pela Grã-Bretanha atormentam agora o Ocidente. A estratégia política se volta contra seu criador.

A imprensa norte-americana até admite que a chegada ao poder do regime Taleban em 1995 resulta, em parte, do apoio americano aos islâmicos anos antes, na década de 80, durante a guerra contra a União Soviética, mas deixa de lado o fundamental, concluindo que a CIA foi enganada por um falso Bin Laden.

A tese do blowback é uma invenção. Há evidências de que a CIA nunca cortou seus vínculos com a rede militante islâmica. Esses vínculos ocultos não só se mantiveram como se tornaram cada vez mais sofisticados. As novas iniciativas obscuras, financiadas pelo tráfico de drogas do Triângulo Afeganistão, Paquistão e Líbia, concretizaram-se através de modernos aparelhos de espionagem militar controlados e liberados pela CIA, servindo como catalisador na desintegração da URSS e no surgimento de seis novas repúblicas mulçumanas, todas alvejadas por movimentos internos revolucionários libertários na Ásia Central, no Cáucaso e nos Bálcãs.

Na década de 90, o serviço secreto paquistanês, o ISI (Inter Services Intelligence) foi usado pela CIA como intermediário para canalizar armas e mercenários islâmicos para o exército que combatia na guerra civil iugoslava. Um despacho da Corporação Internacional da Mídia, com sede em Londres, dizia o seguinte: “Fontes informam que os EUA participam ativamente (em 1994) do armamento e treinamento de forças mulçumanas em franca contravenção aos acordos das Nações Unidas. Agências norte-americanas estão distribuindo armas fabricadas na China, Coréia do Norte e Irã. O governo norte-americano não se limitou a esta intervenção – numa violação clandestina ao boicote de armas para a região , determinado pela ONU. Também envolveu três delegações de alto nível durante os últimos dois anos (anteriores a 1994) em tentativas frustradas de alinhar o governo iugoslavo à política dos EUA. A Iugoslávia é o único país da região que não aceitou a pressão norte-americana.”

Esse despacho é do começo de 1995. Vejam hoje o que foi feito da Iugoslávia.

 

As operações clandestinas dos serviços secretos americanos no oriente foram documentados pelo partido republicano. Um extenso relatório de 1997 do Congresso confirma o despacho citado acima. O relatório acusa o governo Clinton de ser responsável pela conversão de países em bases militares, pela proliferação e abastecimento de movimentos terroristas e confirma inequivocamente a cumplicidade dos EUA com organizações extremistas fundamentalistas islâmicas, inclusive a Al-Qaida de Bin Laden.

Na época os republicanos queriam sabotar o governo Clinton. Foi quando o escândalo Lewinsky veio à tona e desviou a atenção do país e do mundo quanto às políticas externas americanas. Já no terreno de mais substanciosas mentiras, todos os republicanos concordaram em se calar por unanimidade, já que ninguém abriu a boca, quanto às operações clandestinas e tráfico de armas nos Bálcãs, certamente pressionados pelo Pentágono e pela CIA.

 

Os movimentos extremistas, assim, ganharam nova vida, armas e apoio no Oriente, e foram difundidos anos mais tarde com o atentado ao WTC como terroristas pela mídia ocidental nos mesmos EUA, que aproveitaram a idéia de terror e a estenderam aos demais movimentos libertários, hoje, a máscara mortuária não somente da anarquia, mas também dos demais reacionários que nenhum vínculo nutrem com extremistas islâmicos. A notícia foi alterada, distorcida, difundida e, em boa parte do mundo, acatada; servindo de obstáculo para os movimentos antiglobalização. Porém, os Eua não deixaram de abastecer clandestinamente movimentos terroristas, que somente e tão somente por esta “ajuda” foram fundamentais na dissolução da Iugoslávia (que, repito, não aderira às pressões norte-americanas), da Bósnia, Kosovo e Macedônia; enquanto o Departamento de Estado Americano jogava com o “faça o que eu digo, mas não faça o que faço”. Por uma amarga ironia do destino, o exército de libertação que atua nos Bálcãs é financiado e apoiado pela Al-Qaida, assim como conta com o apoio da Otan e da Missão da ONU.

 

Anos mais tarde, o governo Bush declarou ter provas que Osama Bin Laden estaria por trás dos ataques ao WTC e ao Pentágono. “Vi provas absolutamente poderosas e incontroversas de seu vínculo (de Bin Laden) aos acontecimentos de 11 de setembro.”, disse aos cuspes o primeiro ministro britânico Anthony Blair. O que ele se esqueceu de mencionar é que as agências internacionais norte-americanas, inclusive a CIA, continuam protegendo, em nome de seus interesses de dominação e exploração no Oriente, o fundamentalismo islâmico.

Uma ampla guerra contra o terrorismo internacional, então, foi lançada por um governo que protege o terrorismo internacional como parte de sua exploração e intervenção no Oriente. Ou seja, a justificativa para iniciar esta guerra foi totalmente inventada, assim como os motivos que classificam de uma só vez os movimentos libertários como terroristas. Os norte-americanos foram, deliberada e conscientemente, manipulados por seu governo corrupto a empreender uma grande aventura militar que põe em risco não só o futuro de todos os movimentos reacionários, anarquistas, extremistas e fundamentalistas, mas o futuro coletivo de todo o mundo.

 

 

 

A decisão de desorientar os norte-americanos foi tomada poucas horas após os atentados contra o WTC. Sem uma prova contundente, Osama Bin Laden foi apontado como “principal suspeito”. Dois dias mais tarde – quando apenas começavam as investigações do FBI – o presidente Bush comprometeu-se a “levar o mundo à vitória.” O governo confirmou sua intenção de lançar “uma campanha militar prolongada, ao invés de uma ação única contra Bin Laden”. Além do Afeganistão, vários outros países foram apontados como possíveis alvos, como o Iraque, a Líbia, o Irã e o Sudão. Várias importantes personagens políticas e comentaristas famosos norte-americanos exigiram que os ataques aéreos se estendessem a outros países que “apóiam o terrorismo internacional”, sem citar que os próprios EUA o abastecera anos a fio.

A totalidade dos parlamentares norte-americanos – com uma única exceção – aprovou a decisão do governo ir à guerra. Esses mesmos membros da Câmara dos Representantes e do Senado têm acesso a relatórios oficiais confidenciais e a documentos dos serviços secretos que provam, sem qualquer margem de dúvida, que agências governamentais norte-americanas têm fortes vínculos com o terrorismo internacional.

 

 

 

O texto da histórica resolução aprovada pela Câmara e pelo Senado dos EUA no dia 14 de setembro de 2001 autorizou o presidente a usar de toda força necessária e apropriada contra as nações, organizações ou indivíduos (vários norte-americanos de alto escalão comandaram o recrutamento de militantes islâmicos para combater na Iugoslávia, Bósnia e Kosovo, além do abastecimento de armamentos) que ele determine que planejaram, autorizaram, cometeram ou apoiaram atos terroristas, ou tenham dado refúgio a tais organizações ou indivíduos para prevenir, dessa forma, futuros atos armados.

 

 

Embora não existam provas de que as agências do governo norte-americano tenham apoiado os ataques de 11 de setembro de 2001, há uma ampla e detalhada evidência de que estas mesmas agências e a Otan continuam protegendo tais organizações. Ironicamente, a resolução do Congresso também representa um blowback contra os patrocinadores norte-americanos do terrorismo, assim como os próprios efeitos da globalização se tornam uma ameaça ao próprio conceito de globalização, aumentado paulatinamente a dissidência. O próximo passo é organiza-la.

 

 

 

Rodrigo Monzani

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