Simplicíssimo

Ontem (1)

ONTEM

2007-01-14

Não saí de casa, minto, saí para comprar comida e voltei a correr
(que é como quem diz, depressa) para o calor do lar. Debaixo ainda
dos efeitos de uma gripe que até pensei que pudesse ser a famosa gripe
das aves, vi-me obrigado a ir procurar comida porque deixei esgotar o
stock.
Coincidência ou não, esta gripe veio na sequência de um jantar
de frango guisado com massa. Fiquei preocupado e fui à procura ainda
do TAMIFLU na nova farmácia que abriu aqui ao pé da minha casa. Se
julgam que vou dar início a uma nova saga, julgam mal. TAMIFLU
havia com fartura e só não trouxe porque o dinheiro que tenho para
aguentar até ao fim do mês nem chega para pagar a embalagem vazia,
quanto mais o remédio. O empregado de farmácia que me atendeu de
forma tão simpática foi pago com um sorriso amarelo e um “muito
obrigado, era só para estar prevenido para o caso de ser preciso”.
Manietado pela gripe, descurei a investigação em curso do
paradeiro da tintura de iodo. Apenas tento ligar as pontas todas do
grande mistério da tintura com os antecedentes históricos, tendo
chegado àquele que é considerado ser o pai da tintura, um tal de Adam
Smith, escocês – têm fama de somíticos, os escoceses. Vejam só o que a
gente descobre sobre a origem das coisas…
Andei, pois a ler aqui:

http://www.economiabr.net/biografia/smith.html
sobre o tio Smith. Achei piada ao que ele pensava sobre a
educação:
A melhor educação
No Artigo II do Volume II do “Riqueza“ diz Smith que
também as instituições para a educação podem propiciar um
rendimento suficiente para cobrir seus próprios gastos. Ele não se
ocupa de se é dever do Estado propiciar educação gratuita aos
cidadãos. Ele apenas garante que, se esse for o caso,
infalivelmente será a pior educação possível. Ele coteja o ensino
particular com o público, este último exemplificado com o
péssimo ensino que viu em Oxford, universidade onde os
professores tinham seu salário garantido, mesmo que sequer
dessem aulas. Quando o professor não é remunerado às custas do
que pagam os alunos, “o interesse dele é frontalmente oposto a
seu dever, tanto quanto isto é possível“… “é negligenciar
totalmente seu dever ou, se estiver sujeito a alguma autoridade
que não lhe permite isto, desempenhá-lo de uma forma tão
descuidada e desleixada quanto essa autoridade permitir“. Nesta
situação, mesmo um professor consciencioso do seu dever, irá,
segundo Smith, acomodar seu projeto de ensino e pesquisa a suas
conveniências, e não de acordo com parâmetros reais de interesse
de seus alunos.
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2007-01-15
Foi mais um dia para esquecer, aliás é o que temos que fazer com o
passado porque, se o passado já passou, de que vale andarmos a
lembrar-nos de coisas tristes? Para coisas tristes bastam as que estão
ainda para acontecer e são muito piores: o custo de vida vai aumentar,
o desemprego vai aumentar, os combustíveis vão aumentar, a
electricidade vai aumentar, etc.. Em contrapartida, muita coisa vai
diminuir, os ordenados principalmente, porque seguem as leis do
mercado, se o desemprego aumenta, as pessoas passam a aceitar
ganhar cada vez menos. Algumas há que até pagam para trabalhar,
pedindo dinheiro aos pais e familiares, que passam a viver com cada
vez menos tintura. É o caso dos professores estagiários, dos advogados
estagiários e de outros que, sob a desculpa de andarem a aprender, são
explorados até ao tutano. Os advogados estagiários são moços (e
moças) de recado, dactilógrafos(as), secretários(as) de advogados de
renome que ganham rios de dinheiro com a máfia da tintura, aparecem
na televisão e tudo, a arrotar postas de pescada quando o trabalho é
todo feito por estagiários que sonham um dia poder vir a ter os
mesmos privilégios que o patrão que é um génio.
Génio? Neste momento cem mil cérebros se concebem em sonho
génios como ‘eles’, e a história não marcará, quem sabe?, nem
um, nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
In Tabacaria de Fernando Pessoa
Mas ontem, dizia eu, foi um dia para esquecer. Fiz tudo o que
podia ter feito, isto é, praticamente nada. Apenas tratei de sobreviver,
o que, parecendo pouco, nos dias que correm se torna cada vez mais
difícil. A minha imaginação posta ao serviço da poupança já vai sendo
escassa. Pus a roupa a lavar na máquina (que felizmente ainda não se
avariou), sem o detergente recomendado pelo fabricante que é membro
notório da máfia. Eu corto três ou quatro fatias finas de sabão azul e
misturo na roupa. Se for branca, depois de iniciada a lavagem adiciono
meio copo de lixívia.
A roupa fica impecável e a cheirar a lavado. Mas como a meta do
governo é levar as pessoas a sobreviver com menos de um dólar por
dia, estou a ver que tenho que inventar novas soluções, talvez uma
tábua de lavar na banheira seja a melhor solução, gasta-se menos água
e electricidade. Mas o melhor melhor é estar calado, alguém do
governo pode ler e dar-se conta que ainda pode lançar um imposto
sobre o sabão azul ou mais uma taxa sobre a água, e todos os meus
esforços terão sido em vão.

 

Henrique Sousa

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